Europa espera com incerteza e suspense resultado do plebiscito irlandês

Javier Aja Dublin, 12 jun (EFE).- A Europa aguarda com incerteza e suspense o resultado do plebiscito na Irlanda sobre o Tratado de Lisboa, já que a apuração só começa amanhã, quando se saberá o destino de um texto considerado chave para uma União Européia ampliada para 27 países.

EFE |

O veredicto das urnas será anunciado no meio da tarde de uma sexta-feira 13, uma coincidência que talvez deixe muita gente nervosa na supersticiosa Irlanda, o único país do bloco no qual se usa a via do plebiscito para referendar a reforma do documento que já foi chamado de Constituição Européia.

Os mais pragmáticos preferirão se concentrar no único dado que, tendo em vista o empate técnico refletido pelas pesquisas entre o "sim" e o "não", pode dar alguma pista sobre o resultado do plebiscito, ou seja, o do índice de participação.

Na última hora da tarde, a afluência às urnas - foram convocados mais de três milhões de eleitores - estava em torno de 25%, mais alta nas áreas urbanas que nas rurais, e maior entre a classe média do que entre a proletária, como as consultas anteriores.

No entanto, espera-se que a abstenção, principal inimigo do "sim", não chegará ao nível registrado no primeiro plebiscito sobre o Tratado de Nice em 2001, quando apenas 34,7% dos cidadãos exerceram seu direito ao voto e acabaram rejeitando o texto.

Desta vez, os centros eleitorais, que abriram às 3h de Brasília de hoje, não fecharão suas portas até as 18h de Brasília para tentar obter o voto dos mais atrasados ou dos trabalhadores que estejam voltando para casa.

Restará saber se o Governo e seus aliados durante a campanha do plebiscito - os principais partidos da oposição, a maioria dos sindicatos e as organizações patronais, entre outros -, conseguiram motivar seus eleitores e convencer, sobretudo, os 20% a 25% de cidadãos que ainda se declaravam indecisos.

Para dar o exemplo, o primeiro-ministro irlandês, Brian Cowen, votou cedo e assegurou que sua campanha sobre o plebiscito foi "positiva e honesta", ao mesmo tempo que confiou em uma vitória final do "sim".

"Conduzi a campanha o melhor que pude. Fizemos uma campanha positiva e honesta", disse Cowen, que acusou os partidários do "não" de aumentar os "níveis de confusão e medo" entre os cidadãos com questões que "nem sequer estão no Tratado".

A independência fiscal irlandesa, sua neutralidade, sua perda de influência na tomada de decisões na UE, as políticas econômicas ultraliberais de Bruxelas e até o aborto e a eutanásia foram alguns dos assuntos disputados pelos diversos e variados grupos opostos ao Tratado.

Segundo Niamh Hardiman, catedrática de Ciências Políticas da University College Dublin (UCD), muitos desses grupos - como o Sinn Fein, associações pacifistas, esquerdistas e ultraconservadoras - modificaram suas posturas à medida que o Governo foi desmontando seus argumentos.

"Os inimigos escolheram assuntos que não aparecem no Tratado, mas que contribuíram para criar confusão entre o eleitorado, porque é difícil apresentar à cidadania uma série de questões como as abordadas pelo Tratado, que se vêem freqüentemente emaranhadas por interesses políticos nacionais", explicou Niamh à Agência Efe.

Um exemplo, diz a acadêmica, é o Sinn Fein, único partido com representação parlamentar contrário ao texto, que defende agora sua renegociação, mas que não "diz se outra rodada de conversas entre os 27" produziria um Tratado melhor para a Irlanda e a UE.

A este respeito, o multimilionário irlandês Declan Ganley, diretor do grupo "Libertas", assegurou hoje que a possível vitória do "não" no plebiscito obrigará a União a "democratizar" suas instituições de Governo.

Acompanhado por sua esposa DeLia, o controvertido empresário aproveitou sua chegada ao centro eleitoral de Tuam, no condado de Galway (oeste), para insistir nos aspectos negativos do texto comunitário e comemorar por ter contribuído para "gerar um bom debate".

"A Irlanda é o único país que convoca um plebiscito, embora os franceses e holandeses já tenham se pronunciado sobre o documento antecessor deste Tratado. Seja qual for o resultado final, esta é a voz dos irlandeses e é um dia bom para a democracia", lembrou o empresário.

Ganley foi uma das figuras mais visíveis da campanha pelo "não" a partir da plataforma do "Libertas", grupo fundado por ele mesmo em 2004 para protestar contra o projeto de Constituição da UE e, segundo seus críticos, financiado por grupos de pressão ultraconservadores americanos. EFE ja/ma

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