Eurocopa 2008

Foi dado, no sábado, o apito inicial e distribuídos os primeiros cartões amarelos da Eurocopa 2008. Suíços, tchecos, portugueses e turcos fizeram em campo aquilo que suíços, tchecos, portugueses e turcos sabem fazer quando diante de uma bola de futebol: correr, pular, dar botinadas.

BBC Brasil |

Esta é a primeira vez, desde 1984, que nem ingleses nem irlandeses participam de um torneio importante de futebol.

Baixa-me, sempre, em se tratando de futebol, um espírito de porco velhaco e maligno. Que é aquele que me anima e me sobrou no outono, quiçá inverno, de meus dias.

Não suporto os ingleses em estádio ou estado balípodo. Os campeonatos locais ilhéus agora dá para se acompanhar, uma vez que das principais equipes, uma percentagem por volta de 80% é composta de jogadores, ou players (qui, qui, qui), estrangeiros.

O técnico da seleção, inglesa ou irlandesa, pode ser, e em geral é, estrangeiro. Ganha uma fortuna. O que é justo, uma vez que, na hora de escalar um time, é obrigado a escolher apenas cidadãos ingleses. Um contra-senso, uma vez que o multiculturalismo reinante nestas ilhas campeia sem barreiras ou bom senso.

Antecedentes policiais
A seleção inglesa, para variar, andou apanhando como cão ladrão nas classificatórias. As emissoras de rádio e televisão, desbragadamente ufanistas que são, já haviam gasto fortunas adquirindo os direitos de transmissão.

Fortunas dignas até mesmo das que se pagam aos terríveis players (mais risos) que aqui praticam esta modalidade dita esportiva.

Nem mesmo a mais potente das bebidas destiladas fez com que torcedores ingleses e irlandeses se deslocassem para a Áustria e a Suiça, países que dividem as honras de servir de palco para a troca de botinadas do torneio deste ano.

Ingleses e irlandeses (que mania é essa de botar os irlandeses nessa história?) terão que ficar por aqui mesmo maltratando a eficiente colônia imigratória de poloneses nos pubs e lugares públicos. Arrastar-se-ão, ingleses e irlandeses, em dia de jogo, até a tevê mais próxima, que a mágoa, aliada ao álcool e a curiosidade são potentes e superam todas as máscaras falsas da indiferença.

Torcer por quem?
Não perguntes por quem ingleses e irlandeses torcem; eles torcem para que todos percam ou todos terminem em porrada. Esta a verdade, roubada, em parte, da entonação dada por John Donne em um de seus mais citados sermões.

O deão e poeta não poderia acrescentar que os sinos tocam pelo pau comendo adoidado em campos austríacos e suíços. Estava por fora, em matéria de futebol. E nas seculares neutralidades austríaca e suíça. (Áustria neutra? Pois é. Coisas do futebol.)
Uma das coisas mais difíceis do mundo é ficar assistindo 90 minutos de um jogo sem torcer por ninguém. Nem que seja por um bandeirinha ou para que despenque parte de uma arquibancada. A natureza humana do torcedor não suporta um vácuo.

Preocupados com a questão, mais de um jornal inglês andou pesquisando entre a população procurando saber quem é que vai torcer por quem. O Guardian, meu jornal, andou fazendo uma pesquisa online, como virou mania nestas ilhas. 48.232 pessoas responderam dizendo que iriam torcer pela Holanda. Uma maioria esmagadora como uma derrota de seleção inglesa: 96,2% da torcida pesquisada.

O segundo lugar coube à Espanha, que pegou apenas 1,8% dos votos, e, em terceiro, a Alemanha, com 1,4%. Seguidos de Suécia e Romênia.

Comentaristas, com pouco a comentar nas próximas semanas, explicaram a vitória dos "Ai, meus Países Baixos!" como uma rendição ou identificação com a equipe que sempre demonstrou alto nível técnico e sempre, em hora de decisão, acabou entregando o ouro aos bandidos.

Tão longe vai a engenhosidade holandesa que mesmo na hora da votação houve uma bem sucedida tentativa de driblar as regras lícitas do jogo. Não houve cartão vermelho. O jornal acabou aceitando a marotagem. Nos últimos dias da "eleição" (falar nisso, parabéns Obama), o website holandês GeenStijl (literalmente, sem estilo, ou classe) instigou uma campanha com o fito de fazer a balança pender para seu país.

Foi hacking para tudo quanto é lado. Deram como jogada legítima alegando que não faria diferença. Coisas do futebol, como diria Mário Filho. Cruyff, tenho a impressão, não deve ter aprovado, elegante e ajuizado que era e é.

O que restou
Restou e resta, para aqueles que, nestas horas, prefiro chamar de "nativos", com o maior desprezo possível na voz e nas aspas, torcer para a Holanda.

O jornal que promoveu a ocasião cibereleitoral, numa pequena retranca quando da publicação dos resultados, deu duas sugestões de frases de incentivo para torcedores ingleses e irlandeses berrar nas ocasiões de aperto ou mesmo folga.

A primeira demonstra uma nítida preferência pelo goleiro Edwin van der Saar, que aqui na Inglaterra, defende, e como, as cores do Manchester United. Parece que um pouquinho deste país pegou nele. Como uma espécie de pé de atleta. Ou um poucão dele pegou neste país. Como uma espécie de Dutch Elm Disease (doença do olmo holandês).

São estas as duas frases que valem como grito exasperado de torcida:
1 - Hij is groot, hij is Hollands, hioj laat niet veel door.

Que quer dizer o seguinte: "Ele é grande, ele é holandês, ele não deixa passar muito gol".

E depois:
2- We eandelen in een Marco van Basten wonderland.

Ou seja: "Vivemos num mundo encantado de Marco van Basten".

Van Basten foi um bom jogador holandês que marcou sua presença na Inglaterra.

Resumo da história: por aqui, joga-se mal, torce-se pior ainda.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG