EUA: Suposto espião russo é mais leal ao Kremlin que a seu filho

Acusado "Juan Lázaro" revela que sua mulher, peruana Vicky Peláez, viajou à América do Sul para passar informações

iG São Paulo |

Um dos suspeitos de pertencer a uma suposta rede de espionagem russa nos EUA admitiu ser um agente a serviço da inteligência da Rússia e afirmou ser mais leal ao Kremlin do que a seu próprio filho, segundo o Ministério Público americano.

O suspeito, que operava sob uma falsa identidade - dizia ser uruguaio e se chamar Juan Lázaro - também revelou que sua mulher, a jornalista peruana Vicky Peláez, fez várias viagens à América do Sul para dar informação aos superiores russos. 

O casal faz parte de um grupo de 11 acusados , alguns deles instalados há três décadas nos EUA, investigados pelo FBI durante anos por suspeitas de que buscavam se infiltrar nos círculos políticos americanos para enviar informações a Moscou, conforme as práticas em vigor durante a Guerra Fria.

Nove dos 11 suspeitos compareceram na quinta-feira a diferentes tribunais americanos. Cinco suspeitos voltaram a se apresentar à Justiça nesta sexta-feira, com dois deles tendo admitido que eram russos operando com identidades falsas .

Em carta dirigida ao juiz Ronald Ellis, o promotor de Nova York Preet Bharara insistiu na importante confissão de Lázaro e pediu ao juiz que não cometesse com ele o mesmo erro de um tribunal do Chipre, que, ao aceitar libertar sob fiança de US$ 26,5 mil dólares Christopher Metsos, outro suspeito do caso, permitiu que ele fugisse e desaparecesse.

As autoridades cipriotas, que o procuram, temem que tenha ido para o norte da ilha mediterrânea, zona conhecida como o paraíso dos fugitivos, por não ter tratados internacionais de extradição.

Lázaro confessou que não era uruguaio, como se apresentava até então. Ele, porém, não revelou seu verdadeiro nome.

Segundo a carta do promotor Bharara ao juiz Ellis, o suspeito também disse aos investigadores que "ainda que ame seu filho, não trairia, nem sequer por ele, sua lealdade ao 'Serviço'", abreviação usada nos documentos do tribunal para designar o Serviço de Inteligência Exterior (SVR) da Rússia, sucessor da soviética KGB.

O juiz Ellis disse que decidiria o futuro de Lázaro em uma nova data. Já sua mulher foi libertada na quinta-feira em troca de uma fiança de US$ 250 mil, US$ 10 mil deles pagos em dinheiro. Ela deverá utilizar uma pulseira eletrônica e será vigiada.

Entretanto, Ellis negou-se a conceder liberdade sob fiança a outro casal, Richard e Cynthia Murphy, acusados de manter contatos clandestinos de alto nível desde a metade dos anos 90. Na segunda-feira, o juiz também havia negado a liberdade sob fiança de outra suspeita, a empresária russa Anna Chapman , de 28 anos.

Repercussão no Peru

O presidente do Peru, Alan García, afirmou nesta sexta-feira que o marido da jornalista peruana se apresentava há anos como "uma espécie de embaixador da subversão interna do Peru". Segundo García, essa informação foi dada a "pessoas" que viveram nos EUA e era a forma como "Juan Lázaro" se identificava anos atrás.

O presidente comentou que o fato de "Lázaro" ter documentação de três países, em alusão à sua cidadania peruana, uruguaia e, aparentemente, russa, "confirma que ele era um espião de alto grau". "O grau de vinculação ou conhecimento que sua esposa tinha disso será elucidado pela investigação", disse.

Os dois são casados há mais de 20 anos, tem um filho de 17 anos e viviam em um subúrbio de Nova York. Segundo a investigação da promotoria americana, ele recebeu grandes somas de dinheiro de agentes russos em troca de informações.

Espiã "detestável"

O ex-marido de Anna contou nesta sexta-feira a transformação em quatro anos de sua ex-mulher em uma pessoa "arrogante e detestável". O psiquiatra Alex Chapman, de 30 anos, explicou ao jornal britânico "The Daily Telegraph" que conheceu sua ex-mulher em uma festa em Londres em 2001. Naquela época, ela se chamava Anna Kushchenko e tinha 19 anos, dois a menos que ele. Cinco meses depois se casaram em Moscou.

Segundo ele, Anna, inicialmente despreocupada e nada materialista, transformou-se em alguns anos em uma pessoa "arrogante e detestável" que frequentava círculos influentes. O casal divorciou-se em 2006, mas manteve o contato.

A jovem trabalhou em Londres durante vários anos. "Não acredito que trabalhava como espiã na capital britânica, mas creio que estava preparada para esse fim", disse o ex-marido. A atraente mulher, apresentada como uma "femme fatale" por causa de seus cabelos ruivos e olhos verdes, tem sido notícia em jornais em todo o mundo .

Chapman disse que não lhe surpreenderam as acusações contra a ex-mulher, porque ela lhe falou de seu pai, Vasily Kushchenko. "Anna me disse que seu pai ocupou um alto cargo na hierarquia da KGB . Disse que tinha sido um agente na 'velha Rússia'", destacou Chapman. "Seu pai controlava tudo em sua vida, e senti que ela faria qualquer coisa por ele."

"Quando vi que tinha sido presa por espionagem, não foi uma grande surpresa , para ser franco", completou, dizendo que na quarta-feira recebeu a visita de agentes do MI5 - o serviço secreto britânico - em sua residência de Bournemouth (sul da Inglaterra).

O Ministério das Relações Exteriores britânico afirmou que tinha uma investigação em curso sobre os vínculos de Anna Chapman com a Grã-Bretanha.

*Com EFE, AFP e BBC

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