EUA rejeitam ter posição dúbia sobre Irã com Brasil

Segundo autoridades americanas, carta enviada por Obama a presidente Lula não tinha instruções sobre como negociar com o Irã

Luísa Pécora, iG São Paulo |

AFP
Lula, Ahmadinejad e Erdogan comemoram após anúncio de acordo em Teerã
Autoridades americanas rejeitaram nesta sexta-feira a ideia de que os EUA tiveram uma posição dúbia com o Brasil em relação ao Irã, afirmando que uma carta em que o presidente dos EUA, Barack Obama, apoia um acordo sobre troca de combustível nuclear com Teerã "não tinha instruções sobre como negociar".

A afirmação, feita por autoridades americanas sob condição de anonimato em entrevista da qual o iG participou, refere-se a uma carta enviada por Obama ao governo brasileiro cerca de 15 dias antes de o Brasil e a Turquia alcançarem um acordo de troca de combustível nuclear com o Irã , em 17 de maio.

Segundo os EUA, a carta de Obama foi enviada a pedido do Brasil, que, após reunião sobre o assunto durante a Cúpula Nuclear de Washington, em 12 e 13 de abril, pediu uma “reação do governo americano” a um eventual acordo com o Irã sobre a troca de combustível. “Não pedimos que negociassem por nós”, afirmou a autoridade. “(A carta) não tinha instruções sobre como negociar.”

O vazamento do documento, inicialmente em trechos pela Reuters e depois na íntegra pelo jornal Folha de S.Paulo, vem sendo usado para corroborar o argumento de que o acordo mediado por Brasil e Turquia atendia às reivindicações dos EUA por seguir as mesmas bases de uma proposta apresentada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em outubro, e que deveria bastar para pelo menos protelar a adoção de novas sanções. Por esse raciocínio, o governo brasileiro teria sido encorajado pelos EUA para depois ter seu esforço diplomático rejeitado.

Na carta, Obama afirmou que um pacto em que o Irã se comprometesse a trocar combustível no exterior “criaria confiança e diminuiria as tensões”. No documento, o presidente americano, porém, também reiterou que os EUA continuariam buscando novas sanções até que o Irã demonstrasse “compromisso construtivo” com as negociações.

A divulgação dos trechos da carta de Obama ocorreu três dias após os Estados Unidos considerarem o documento turco-brasileiro insuficiente. No dia seguinte ao acordo, em 18 de maio, Washington enviou um projeto de resolução ao Conselho de Segurança da ONU para impor a quarta rodada de sanções ao Irã sob suspeita de que o país quer desenvolvar armas nucleares. O governo iraniano rejeita essa afirmação, dizendo que seu programa tem somente objetivos civis.

Enriquecimento a 20%

Uma das principais críticas americanas ao acordo turco-brasileiro é o fato de que, logo após sua assinatura, o Irã anunciou que continuaria enriquecendo urânio a 20%. "O problema é que o Irã continua a enriquecer urânio apesar de estar obrigado a suspender seu programa nuclear conforme três resoluções (anteriores do Conselho de Segurança da ONU)", disseram as autoridades americanas.

Apesar de a questão de a suspensão do enriquecimento de urânio não estar especificada na carta de Obama, o governo americano considera que o Brasil estava ciente de sua importância. Segundo as fontes, o assunto teria sido discutido em diferentes conversas entre integrantes do alto escalão dos dois governos.

As autoridades acrescentaram que, se o Brasil tinha dúvidas sobre a posição dos EUA, poderia ter enviado um rascunho do acordo fechado com o Irã para uma avaliação antes de assiná-lo, o que não teria sido feito.

O governo americano também questiona a desatualização do documento mediado por Brasil e Turquia. De acordo com o texto, o Irã enviaria para território turco 1.200 quilos de urânio baixamente enriquecido, para em troca receber, no prazo de um ano, 120 quilos de urânio enriquecido a 20%, para uso em um reator de pesquisas nucleares.

As autoridades americanas lembraram que, quando a proposta inicialmente surgiu, em outubro, o Irã possuía um estoque de urânio estimado em justamente 1.200 quilos, mas que desde então já quase o duplicou. Isso significaria que, mesmo enviando material para a Turquia, o Irã ainda teria em tese urânio suficiente para tentar desenvolver armas nucleares.

O porta-voz do Departamento de Estado americano, P.J. Crownley, disse que a secretária Hillary Clinton deve discutir o assunto com seu colega turco, Ahmet Davutoglu, na terça-feira em Washington.

*Com Reuters

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