EUA: Plano para troca começou antes de prisão de agentes russos

Na maior ação do gênero desde a Guerra Fria, dez agentes da Rússia são trocados por quatro dos EUA

iG São Paulo |

O governo do presidente americano, Barack Obama, começou a analisar uma possível troca de espiões com a Rússia em 11 de junho, 16 dias antes das prisões dos dez supostos agentes russos nos EUA, afirmou um alto funcionário do país nesta sexta-feira.

Detalhes sobre os fatos que antecederam à maior troca de espiões entre Rússia e EUA desde a Guerra Fria foram divulgados horas depois de os dois países trocarem agentes na pista do aeroporto de Viena .

Funcionários da Casa Branca foram avisados pela primeira vez sobre o acompamento das atividades secretas dos russos em fevereiro, e Obama foi notificado em 11 de junho, disse o funcionário. Nesse dia foi levantada a possibilidade de uma troca de espiões, entre outras opções, afirmou.

O governo americano reuniu então uma lista de quato nomes para propor que a Rússia libertasse em troca dos russos presos em 27 de junho. O desfecho do escândalo de espionagem surgiu depois que o acordo foi firmado com a aprovação de Obama e do presidente russo, Dmitry Medvedev, ambos interessados em não prejudicar as relações entre seus países.

Na noite de sexta-feira, um avião com um número indeterminado de russos que trabalhavam para os serviços secretos americanos chegou a Washington. O avião saiu de Viena , fez escala para reabastecimento numa base militar britânica e seguiu rumo à capital americana, segundo a televisão local.

Horas antes, quando os dez agentes da Rússia desembarcaram em Moscou, o Departamento de Justiça dos EUA confirmou oficialmente o acordo com a Rússia . "Os EUA transferiram com sucesso dez agentes à Federação Russa, que libertou quatro pessoas que estavam presas na Rússia", disse Dean Boyd, porta-voz do Escritório de Segurança Nacional do Departamento de Justiça.

Já o Ministério de Assuntos Exteriores russo disse que o acordo foi possível graças à atual melhora das relações entre o Kremlin e a Casa Branca . A troca aconteceu "no contexto geral de melhoria das relações russo-americanas, a fim de dar um novo dinamismo no espírito dos acordos de mais alto nível entre Moscou e Washington sobre o caráter estratégico da cooperação bilateral", disse a Chancelaria.

A operação aconteceu um dia depois de os espiões terem se declarado culpados de espionar para um país estrangeiro perante uma corte de Nova York. A admissão de "conspirar para atuar como um agente não registrado de um país estrangeiro" fez parte do acordo entre EUA e Rússia.

A juíza do caso, Kimba Wood, ordenou que os dez agentes fossem deportados imediatamente para a Rússia, afirmando que eles estavam proibidos de voltar aos EUA. A acusação de lavagem de dinheiro contra nove dos acusados foi retirada.

Durante a audiência, na quinta-feira, sete dos suspeitos revelaram seus verdadeiros nomes e admitiram serem agentes da Rússia. "Richard Murphy" e "Cynthia Murphy" admitiram que eram cidadãos russos chamados Vladimir Guryev e Lydia Guryev; "Donald Howard Heathfield" e "Tracey Lee Ann Foley" eram cidadãos russos chamados Andrey Bezrukov e Elena Vavilova; " Juan Lázaro " admitiu ser o cidadão russo Mikhail Vasenkov; e " Michael Zottoli " e "Patricia Mills" admitiram ser cidadãos russos.

Outros três, que também confessaram serem agentes, operavam nos EUA com seus nomes verdadeiros: Anna Chapman , Mikhail Semenko e Vicky Peláez . Pelaez, nascida no Peru, era a única dos dez acusados que não tinha nacionalidade russa. A jovem ruiva Anna Chapman foi capa da imprensa internacional quando seu ex-marido britânico revelou detalhes e fotos íntimas de quando eram casados. O 11º acusado de pertencer à rede de espionagem, Chris Metsos, de 54 anos, que utilizava um passaporte canadense, está foragido após ter sido detido no Chipre e posto em liberdade após pagar uma fiança.

Rússia entregou três oficiais de seus serviços secretos e um cientista, que foram condenados por espionar para Washington. As identidades dos libertados pela Rússia são Igor Sutyagin , cientista nuclear preso em 2004 por espionar para a CIA; Sergei Skripal, um oficial da Inteligência militar russa condenado em 2006 por espionar para a Grã-Bretanha; Alexander Zaporozhsky, ex-empregado dos serviços de Inteligência no exterior preso por espionagem em 2003; e Gennadiy Vasilenko, ex-agente da KGB. Para tornar a troca possível, eles receberam um indulto do presidente russo, Dmitri Medvedev, na véspera.

A Chancelaria russa ressaltou que o acordo foi alcançado pelo Serviço de Espionagem Exterior (SVR) russo e a CIA (Agência de Inteligência Americana) com o sinal verde do Kremlin e da Casa Branca.

Troca de espiões

nullPresos em uma grande operação do FBI e outros órgãos de inteligência americanos em 27 de junho, os dez suspeitos foram acusados pela Promotoria de se infiltrar em círculos políticos influentes dos EUA e coletar informações. Os promotores disseram que os acusados passavam por cidadãos comuns, alguns deles vivendo como casais durante anos, sendo ordenados pelo SVR a se infiltrar nos círculos políticos e de coletas de informação.

O desfecho do caso foi antecipado pela rede de TV CNN , que, citando uma fonte próxima ao caso, afirmou que os acusados seriam deportados para a Rússia.

Na quarta-feira, a imprensa americana indicou que as autoridades dos EUA buscavam um acordo para uma declaração de culpa, redução da pena e a posterior deportação dos agentes à Rússia, o que permitiria aos EUA evitar uma cadeia de longos processos nos quais poderia tornar públicas informações confidenciais sobre os métodos de trabalho dos serviços secretos americanos.

Além disso, tal solução permitiria a Washington e Moscou fechar o embaraçoso caso de espionagem, que escurece a nova etapa de suas relações bilaterais e poderia prejudicar a ratificação nos EUA do novo tratado de desarmamento nuclear.

*Com Reuters, BBC, AFP e EFE

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