EUA não temem mais a esquerda latino-americana, dizem analistas

O Estados Unidos não veem mais com com desconfiança a chamada maré rosada que vem conduzindo governantes de esquerda ao poder em diferentes países da América Latina. Essa é a opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil em Washington.

BBC Brasil |

A bola da vez é El Salvador, onde toma posse nesta segunda-feira Maurício Funes, um jornalista pertencente ao ex-grupo guerrilheiro Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), que se converteu em partido político.

''Os Estados Unidos veem com mais preocupação a instabilidade gerada por um retorno ao autoritarismo do que a maré rosada'', opina Riordan Roett, diretor do programa das Américas da Universidade Johns Hopkins.

O governo americano estará, inclusive, representado na posse de Funes, na próxima segunda-feira, pela secretária de Estado, Hillary Clinton. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um dos líderes internacionais que comparecerão à posse.

Nos anos 80, durante a gestão do presidente Ronald Reagan, Washington financiou o governo de direita de El Salvador e organizações paramilitares que combatiam representantes da guerrilha que atualmente integram o governo salvadorenho.

''O consenso em Washington é que a eleição de Maurício Funes é parte de um processo político longo e complicado, mas democrático. A FMLN, após anos sendo derrotada como uma força guerrilheira, se transferiu para o ambiente urbano, tornando-se o segundo partido do país. A Arena (partido governista, de direita, que governou até a posse de Funes) nem sempre foi uma organização democrática. Mas temos duas agremiações, uma de esquerda, uma de direita, que se moveram para o centro'', afirma Roett.

Distinções
O analista acredita que os Estados Unidos percebem as diferentes matizes ideológicas entre os governantes de esquerda da região.

''Se tivéssemos uma tendência de ver governos como os do Brasil e Chile adotando estratégias similares aos da Venezuela, de Hugo Chávez, e da Nicarágua, de Daniel Ortega, isso seria motivo de preocupação. Mas a tendência esquerdista, populista e anti-Washington, da Venezuela, só foi adotada por enquanto em três ou quatro países, todos eles são nações pequenas'', afirma.

Moisés Naím, editor-chefe da revista Foreign Policy e ex-ministro do Comércio na Venezuela na década de 90, afirma que a crise econômica levou, inclusive, a um paradoxo no qual governos de esquerda incorporaram práticas neo-liberais e os Estados Unidos é que passaram a seguir modelos normalmente identificados com a esquerda.

''Atualmente, o presidente Lula adota políticas econômicas que estão mais à direita do que as que estão sendo seguidas pelo presidente Barack Obama'', afirma.

Naím julga até que é difícil dizer que exista uma tendência rumo à esquerda na América Latina.

''Cada país tem circunstâncias distintas. Ao lado de El Salvador temos o Panamá, onde a vitória foi da direita. A vitória do presidente Funes se deu após o partido direitista Arena ter permanecido no poder por décadas. Os eleitores buscavam mudanças, e Funes oferecia estas mudanças'', diz Naím.

Eixo Lula x Eixo Chávez
Para o analista, o novo líder de El Salvador é seguidor do que ele chama de um ''eixo de Lula'', que se contrapõe ''ao eixo de Chávez''.

Os países ligados ao Brasil, opina Naím, ''estão aliados a um dos mais importantes líderes mundiais, que agora conta com um lugar na mesa em todas as principais rodadas de negociações, em temas como meio ambiente, comércio ou energia''.

O eixo chavista, como escreveu o editor em um recente artigo ao jornal espanhol El País seria marcado por uma ''aliança anti-ianque'' e pela adoção de políticas ligadas ao chamado socialismo do século 21, do presidente Hugo Chávez.

Naím identifica esse eixo como liderado pela Venezuela e seguido por Bolívia, Equador e Nicarágua. Segundo ele, Paraguai e Honduras também integram essa aliança, mas contam com movimentos internos de oposição que impedem uma adesão mais profunda.

''A ascenção da esquerda nestes países certamente contou com forte auxílio do presidente Chávez'', afirma o analista, mas ele acrescenta que muitos dos fatores que permitiram ao venezuelano criar a sua ''aliança bolivariana'' não estão mais presentes.

''O presidente Chávez tinha como mentor Fidel Castro, que não está mais atuante, o petróleo não está mais a US$ 100 por barril, logo, ele não pode mais sair por aí distribuindo dinheiro, e com a ausência de um presidente dos Estados Unidos profundamente impopular, e com Barack Obama em alta na América Latina, não é mais tão fácil receber aplausos ao se criticar os Estados Unidos'', comenta.

Naím afirma que o governo de Maurício Funes procurou se espelhar em Lula, não em Chávez. ''Mas seu partido conta com uma facção expressiva alinhada com Hugo Chávez, que, por sinal, teve papel importante em obter financiamento para sua campanha. Mas Funes conta com apoio suficiente para se mover na direção de Lula e não na de Chávez''.

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