O governo dos Estados Unidos inaugurou uma prática inédita ao socorrer nesta semana a maior firma de seguros dos Estados Unidos com uma injeção de US$ 85 bilhões e adquirindo 80% das ações da empresa. Até então, o Tesouro americano havia se limitado a intervir em instituições financeiras, como o banco Bear Stearns e as gigantes de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac, mas nunca em uma companhia de seguros.

''Os Bancos Centrais mundiais seguem o princípio de que há bancos em seus países que são grandes demais para deixar que eles entrem em concordata'', disse à BBC Brasil Richard Marston, professor de finanças da Wharton Business School.

Para o economista, ''o Fed (Banco Central americano) seguramente iria intervir se o Bank of America ameaçasse falir. E o Bank of England certamente seria salvo pelo Banco da Inglaterra, mas salvar uma companhia de seguros é sem precedentes''.

Mas Marston acredita que a ação inédita foi acertada. ''O Fed não podia simplesmente se recostar e deixar o pior acontecer. Isso provocaria o colapso do sistema financeiro. Seria mais grave ainda do que o pedido de concordata do Lehman Brothers. Mas ao intervir, o Fed inaugurou uma nova era.''

Sem socorro
No início da semana, o Fed optou por não socorrer o banco Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos americano.

A decisão de não auxiliar a instituição de 158 anos recebeu elogios de representantes do mercado financeiro e de analistas do setor.

O jornal Washington Post registrou em um editorial que o recado dado pelo governo foi o de que ele ''não pode resgatar todo mundo''.

Mas estima-se que o colapso da AIG teria um efeito muito mais devastador do que a falência do Lehman, já que a seguradora tinha inúmeros clientes no sistema financeiro.

Mudança de paradigma
O superintendente do Departamento de Seguros de Nova York, Eric Dinallo, avalia que a ação intervencionista do governo americano é ''uma mudança de paradigma na economia''.

''Eu nunca vi nada igual. Na sexta-feira (da semana passada), nós começamos a avaliar a situação da companhia. O governador (de Nova York, David Patterson) então autorizou o Estado a emprestar US$ 20 bilhões para a firma, para cobrir o que parecia ser um rombo menor do que o esperado.''
Mas ainda na segunda-feira, de acordo com Dinallo, percebeu-se que a quantia seria insuficiente para sanar as dívidas da AIG, mas ele julga que os US$ 85 bilhões oferecidos pelo Fed deverão bastar à companhia.

'Desastroso'
Para o senador e ex-presidenciável democrata, Chris Dodd, que preside o comitê do Senado americano responsável pelo setor bancário, a intervenção do Fed foi ''triste e trágica'', mas ele acrescentou que ''não ter feito nada seria ainda mais desastroso''.

O senador Judd Gregg, o mais graduado republicano no Comitê de Orçamento do Senado, afirmou que caso o banco central tivesse permitido a falência da AIG, isso teria provocado uma quebradeira de proporções globais.

Gregg acredita que os auxílios do Fed ao Fannie Mae, Freddie Mac e AIG foram casos especiais e necessários, porque estas instituições ''provocariam o colapso do sistema inteiro se permitíssimos que elas falissem''.

Foi esse o argumento da Casa Branca ao justificar a decisão.

De acordo com a porta-voz do governo americano, Dana Perino, Fannie Mae, Freddie Mac e AIG são firmas ''tão grandes que, permitir que elas fracassassem, teria causado ainda mais danos e estragos à economia''.

Sem unanimidade
Mas nem todos cobrem de elogios a decisão do Banco Central de auxiliar a seguradora.

O ex-secretário do Tesouro americano Jon Snow, em entrevista à rede CNBC, mostrou preocupação de que o Fed possa estar criando um precedente perigoso.

''Onde é que nós paramos? Existe um grande perigo de que passemos a reagir com excesso de zelo. É preciso que os representantes do mercado passem a fazer avaliações baseadas na realidade do mercado em vez de contar com o governo para salvá-los sempre que elas cometerem um erro''.

A decisão do Fed despertou críticas entre os republicanos de George W. Bush.

O senador Jim Bunning, um dos integrantes do comitê do Senado responsável pelo setor bancário, afirmou que "mais uma vez o Fed usou o contribuinte para pagar bilhões de dólares para salvar uma instituição que colocou a ambição acima da responsabilidade e usou o seu bom nome para fazer apostas arriscadas que não deram certo".

O economista Richard Marston acredita que talvez a AIG não seja a última instituição a ser beneficiada pelo Fed.

''Há 20 anos, o Fed nem pensaria em fazer algo parecido. Mas a realidade hoje é muito distinta. O governo precisa avaliar o que aconteceria e a proporção do estrago se ele não entrar em cena. O problema da crise é que quando pensamos que ela passou e que nós já aprendemos tudo que tínhamos para aprender, ela volta com força. Nada impede que algo assim volte a se repetir.''

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.