Teerã afirma que potências mundiais perdem credibilidade ao insistir com novas sanções após acordo alcançado por Brasil e Turquia

Os Estados Unidos esperam que o Conselho de Segurança da ONU vote a resolução de sanções ao Irã até 21 de junho, informou o porta-voz do Departamento de Estado americano, Philip Crowley, nesta quarta-feira. "O presidente (Barack Obama) disse que gostaria que isso fosse feito até a primavera" em 21 de junho, afirmou Crowley aos jornalistas.

Autoridades dos EUA e da Europa buscam medidas suficientemente fortes para convencer a interrupção, por parte de Teerã, do enriquecimento de urânio. Se aprovada, a resolução será a quarta rodada de sanções com o objetivo de induzir o Irã a desistir de quaisquer ambições de construir a bomba.

O Irã diz que seu programa de desenvolvimento nuclear tem o objetivo de produzir energia para uso civil, mas autoridades americanas e europeias revelaram atividades que não parecem relacionadas à simples produção de eletricidade, afirmando que Teerã não cumpriu com obrigações do Tratado de Não-Proliferação Nuclear para permitir inspeções a todas suas instalações nucleares.

Irã pede cooperação

O ministro das Relações Exteriores do Irã pediu nesta quarta-feira que as potências mundiais cooperem com o país em relação ao seu programa nuclear e afirmou que novas sanções não convencerão Teerã a abandoná-lo.

Falando durante uma viagem a Bruxelas, onde discutiu a atividade iraniana com o Parlamento Europeu, Manouchehr Mottaki afirmou que o Irã estava pronto para seguir o plano de troca de combustível fechado por Irã, Turquia e Brasil, que recebeu críticas das potências ocidentais.

De acordo com o plano, o Irã receberia urânio altamente enriquecido, que diz precisar para usos médicos, em troca dos estoques de gradação mais baixa.

No entanto, Mottaki afirmou que o projeto iraniano de refinar o urânio em níveis mais altos, divulgado recentemente e que levantou suspeitas no Ocidente sobre as intenções de Teerã, seria ampliado pelo governo caso o país não conseguisse obter o material de outra forma.

"Definitivamente continuaremos com nossa produção de urânio (de grau mais elevado)", afirmou Mottaki durante um encontro no Centro de Política Europeia em Bruxelas.

Ao comentar as críticas sobre o programa de troca de combustível, Mottaki afirmou que Washington está relutante em buscar uma solução diplomática. "Queríamos passar da postura com base no confronto para uma postura cooperativa. Agora acreditamos que há duas opções", disse ele a jornalistas.

"A primeira é essa iniciativa (turca e brasileira)...a diplomática. A outra é...baseada no confronto."

Mottaki encontrou-se com integrantes do Parlamento Europeu durante sua visita de dois dias, mas não com a chefe de política externa da UE, Catherine Ashton, que não se encontrava em Bruxelas.

Um porta-voz de Ashton disse neste mês que ela acredita que os esforços feitos pela Turquia e pelo Brasil poderiam ser um passo na direção correto, mas ainda permaneciam dúvidas sobre a proposta.

Grã-Bretanha, França e Alemanha fazem parte de um grupo de potências globais que negociam com o Irã, que inclui ainda EUA, Rússia e China.

Potências preocupadas

O Irã diz que seu programa nuclear tem fins pacíficos, mas as potências ocidentais suspeitam que o país planeja a construção de armas nucleares.

A República Islâmica começou em fevereiro a enriquecer urânio a 20%. Para a fabricação de bombas, o nível de pureza deve ser de 90 por cento.

Sob o acordo mediado entre Brasil e Turquia, o Irã enviaria 1.200 quilos de seu urânio baixamente enriquecido à Turquia, enquanto Teerã receberia urânio altamente enriquecido para seu reator médico.

Os Estados Unidos disseram que o plano é uma tentativa de último minuto de Teerã de se desviar da pressão por sanções.

"A movimentação através do Conselho de Segurança vai matar essa iniciativa", disse Mottaki em Bruxelas. "Quando nós não precisarmos de urânio de 20 por cento, não iremos produzi-lo." "Eu não acredito que as sanções vão acontecer. Não há consenso", acrescentou.

Enquanto as discussões sobre uma nova rodada de sanções ganham força internacional, um grupo de peritos de alto nível disse que as potências mundiais deveriam considerar seriamente o plano de troca de combustível recém elaborado, mesmo que ele não seja perfeito.

Os especialistas disseram que, enquanto o plano não conseguiu abordar os aspectos fundamentais do trabalho nuclear do Irã, abriria as portas para maior envolvimento diplomático.

Outras sanções ao Irã

Em março de 2008, a ONU impôs uma última rodada de sanções ao país, que incluem a proibição de viagens internacionais para cinco autoridades iranianas e o congelamento de ativos financeiros no exterior de 13 companhias e de 13 autoridades iranianas. A resolução também impede a venda para o Irã dos chamados itens de "uso duplo" – que podem ter objetivos pacíficos e militares.

Em 10 de junho de 2008, os Estados Unidos e União Europeia anunciaram que estariam dispostos a reforçar as sanções com medidas adicionais.

Treze dias depois, a UE concordou em congelar bens do maior banco iraniano, o Banco Melli, e estender a proibição de vistos para iranianos envolvidos no desenvolvimento do programa nuclear.

Ainda em junho daquele ano, o então representante da União Europeia para política externa, Javier Solana, apresentou, em nome de China, UE, Rússia e Estados Unidos, um pacote de incentivos econômicos ao Irã em troca de garantias de que o país não fabricaria armas nucleares.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.