EUA e Turquia tentam resgatar relações bilaterais após Era Bush

Andrés Mourenza. Istambul, 7 mar (EFE).- As relações diplomáticas entre Estados Unidos e Turquia parecem novamente ter voltado aos trilhos, após a visita da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ao país e depois do anúncio da viagem do presidente Barack Obama a Ancara.

EFE |

A amizade histórica entre os Governos turco e americano foi afetada durante a Administração do presidente George W. Bush por causa de vários incidentes diplomáticos relacionados ao Iraque.

O Parlamento turco rejeitou permitir o uso de território turco para a invasão do Iraque em 2003, e, em resposta, os Estados Unidos detiveram vários agentes secretos turcos no norte iraquiano.

Além disso, diversas autoridades em Ancara acusaram Washington de apoiar indiretamente o grupo armado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e de favorecer a divisão do Iraque.

Os dois países também divergiram em relação à colaboração entre Turquia e Irã e à posição mais compreensiva de Ancara em relação ao movimento islâmico palestino Hamas, no poder na Faixa de Gaza.

"As relações entre Turquia e EUA são baseadas na amizade, na cooperação e na aliança", afirmaram Hillary e o chanceler turco, Ali Babacan, em comunicado após se reunirem com o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, e o presidente da República, Abdullah Gül.

"Reafirmamos mutuamente nossa cooperação estratégica", acrescentaram.

"É muito importante que tenhamos colocado fim a um período de problemas", ressaltou o encarregado de Assuntos Exteriores do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, no poder), Suat Kiniklioglu, em entrevista à emissora "NTV".

Diversos analistas turcos destacam que a Administração de Obama está tentando conquistar novamente o apoio da Turquia em sua nova estratégia internacional.

Desta forma, Hillary agradeceu "pelo papel da Turquia" no processo de paz para resolver o conflito palestino-israelense e defendeu a "solução baseada em dois Estados" que propiciem um ambiente de "democracia, prosperidade e estabilidade", que permitam "a Israel e a seus vizinhos árabes viver em paz".

Assim como fizeram na visita do enviado americano ao Oriente Médio George Mitchell, Erdogan e Babacan buscaram convencer a secretária de Estado dos EUA de que não se deve deixar o Hamas de fora do processo de paz.

Por outro lado, quanto às relações entre Síria e EUA, Hillary reconheceu que dois enviados do Governo americano se encontram em Damasco para tentar melhorar o relacionamento com um país acusado reiteradamente por Washington de desestabilizar a região às ordens do Irã.

Ainda sobre a Síria, Babacan assegurou que a Turquia está "preparada" para retomar o patrocínio das negociações de paz entre sírios e israelenses, estremecidas pelo ataque de Israel a Gaza, "no mesmo momento em que houver um pedido das partes".

"Entende-se, pelas declarações de Hillary, que as relações entre Síria e Estados Unidos vão experimentar uma grande mudança nos próximos meses, e a Turquia terá um papel importante nela", afirmou Semih Idiz, do jornal "Milliyet".

Babacan também abordou a questão da retirada de tropas americanas do Iraque, e explicou que o Governo turco "está tratando este assunto com os EUA", já que, presumivelmente, o processo será realizado através de território turco.

"Neste momento, estamos começando a planejar a retirada. Quando será feita, como e por onde, ainda é cedo para dizer", confirmou a secretária de Estado, que prometeu que a Turquia desempenhará um papel importante, ao ser um aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Nos últimos meses, os Estados Unidos promoveram também a aproximação entre Ancara e o Governo regional curdo do norte do Iraque, onde se encontram as bases do PKK.

Hillary quis deixar claro seu apoio à Turquia em relação ao PKK, ao qualificá-lo de "inimigo comum" de Turquia e EUA.

Uma das razões mais importantes que levou a secretária de Estado à Turquia foi discutir o aumento do número de soldados no Afeganistão para combater a crescente insurgência talibã.

Os EUA pressionam a Turquia para que envie tropas de combate ao país centro-asiático, já que, atualmente, há 800 militares turcos no Afeganistão, mas os soldados não têm autorização para participar de missões de confronto com os talibãs.

Embora não tenha sido tratado publicamente o chamado "genocídio armênio" - o massacre de centenas de milhares de armênios por parte do Império Otomano em 1915 -, os analistas não duvidam de que as autoridades turcas tentaram convencer Hillary a não usar o termo.

Antes de ser eleito, Obama tinha prometido ao lobby armênio dos EUA que incluiria a palavra "genocídio" na carta de pêsames enviada todo dia 24 de abril para lembrar o triste fato.

Fontes do Partido Democrata citadas pela "NTV" destacaram que o presidente americano teria decidido não utilizar a expressão, já que poderia dificultar o processo de normalização das relações entre Turquia e Armênia. EFE amu/db

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