EUA divididos pela eleição presidencial e Califórnia pelo casamento gay

Enquanto os Estados Unidos se dividem entre os partidários de Barack Obama e John McCain, a Califórnia se inclina em harmonia pelo candidato democrata, mas o referendo que pretende proibir o casamento gay é o pomo de discórdia para a votação de 4 de novembro.

AFP |

A "Proposta 8" promovida pelos grupos conservadores no estado busca, por meio do voto popular, anular a decisão adotada em maio pela Suprema Corte da Califórnia de legalizar os matrimônios homossexuais.

O texto do referendo propõe a inclusão de uma emenda à Constituição estadual que afirma: "Somente o casamento entre um homem e uma mulher é válido ou reconhecido na Califórnia".

No estado de 37 milhões de pessoas o "Sim" à "Proposta 8" ganhou pontos nas pesquisas desde agosto, quando se intensificou a campanha a favor da medida, que teve como alvo em especial os valores católicos da comunidade latina, que representa mais de 30% da população da Califórnia e que em 2000 votou majoritariamente contra os casamentos gays em uma consulta similar.

Segundo o Instituto de Políticas Públicas da Califórnia, 52% votariam "Não" à proibição dos matrimônios gays e 44% "Sim" aos casamentos apenas entre um homem e uma mulher, de acordo com resultados da semana passada.

No entanto, a tensão reina em um estado onde milhares de casais homossexuais compareceram ao registro civil desde junho e ninguém sabe o que aconteceria com a união em caso de vitória do "Sim" à emenda constitucional.

"A 'Proposta 8' protege nossas crianças do que as ensinam nas escolas públicas, que o matrimônio entre o mesmo sexo é igualmente aceitável ao matrimônio tradicional entre um homem e uma mulher", afirma a associação 'Proteger o Casamento', que reúne as maiores organizações religiosas e educativas da Califórnia.

"Como não têm argumentos suficientes para sua proposta discriminatória, estão usando o medo, usando as crianças e apontando para os latinos, em uma campanha baseada em mentiras", afirma à AFP Mónica Trasandes, porta-voz de Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação (GLAAD), organismo em campanha pelo "Não".

Para o Supervisor de Instrução Pública da Califórnia, Jack O'Connell, as propagandas que afirmam que as crianças aprenderão desde o jardim de infância sobre o casamento entre uma princesa e uma fada, como afirma um anúncio em tom de sátira de conto infantil, "é alarmante e irresponsável".

"Não há nada na lei estadual da Califórnia que possa requerer um ensino sobre o matrimônio e isto não vai mudar. Estes anúncios são ridículos e são um insulto aos eleitores da Califórnia", critica Ted Mitchell, presidente da Administração de Escolas Públicas do Estado.

A intensidade que cerca a "Proposta 8" fica demonstrada pelos quase 60 milhões de dólares arrecadados entre detratores e simpatizantes, o que faz desta a campanha mais cara por uma medida estadual em todos os Estados Unidos este ano.

Até semana passada, os defensores do "Sim" haviam arrecadado 27,5 milhões de dólares, sendo US$ 10 milhões em doações da igreja mórmon, segundo o GLAAD, enquanto os adversários da medida contam com 31,2 milhões de dólares.

Os grupos conservadores centraram a propaganda nos valores católicos da comunidade latina sobre a proteção da família, como fica demonstrado pelos inúmeros anúncios em espanhol.

"A Proposta 8 contém as mesmas palavras que foram aprovadas em 2000 por mais de 61% dos eleitores da Califórnia. A maioria foi de eleitores latinos, como você", afirma um anúncio de rádio.

Brad Pitt, Steven Spielberg, Ellen DeGeneres e a multinacional Apple são algumas das celebridades californianas que doaram até 100.000 dólares a favor do "Não".

Nesta semana, no entanto, estrelas latinas tiveram que entrar na campanha para rebater os argumentos dos patrocinadores do "Sim".

"Votar "Não" à Proposta 8 é preservar a integridade da igualdad dos direitos neste país. Não se trata de ser gay ou ser heterossexual, se trata de ser americano", afirma America Ferrera, ao lado de dois colegas latinos da série "Ugly Betty", Tony Plana e Ana Ortiz.

Conhecido como um reduto do Partido Democrata e progressista, a Califórnia também é o estado que elegeu duas vezes como governador o ator republicano Arnold Schwarzenegger, além de ser a sede de grupos antiimigrantes radicais em bairros próximos da fronteira com o México. Estes últimos grupos também fazem campanha contra o casamento gay.

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