EUA devem cortar benefícios tarifários à Bolívia

O anúncio divulgado pela Casa Branca, nesta sexta-feira, de que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, propôs a suspensão das preferências tarifárias que seu país oferece à Bolívia gerou preocupação entre exportadores bolivianos.

BBC Brasil |

"Proponho suspender a designação da Bolívia como país beneficiário da Lei de Preferências Tarifárias Andinas e Erradicação de Drogas (ATPDEA, na sigla em inglês)", diz o texto oficial americano, assinado por Bush.

No comunicado, divulgado pela representante de comércio americano, Susan Schwab, destaca-se que a Bolívia não tem cumprido sua promessa de combate às drogas.

O anúncio ocorre duas semanas depois de que o presidente da Bolívia, Evo Morales, expulsou o embaixador americano em La Paz, Philip Goldberg, acusado por ele de conspiração contra seu governo. A iniciativa de Morales levou o governo americano a expulsar o embaixador boliviano em Washington.

Dias depois das expulsões, os EUA incluíram pela primeira vez a Bolívia na lista de países que as autoridades de Washington classificam como produtores de drogas ou que são usados como corredores por traficantes.

Preocupação
"A decisão americana sobre a ATPDEA é um desastre para a Bolívia", disse à BBC Brasil, por telefone, o presidente da Câmara de Exportadores de La Paz, Guillermo Pou Munt.

"Pelo menos 25 mil empregos dependem desta preferência tarifária só aqui em La Paz, a região que será mais afetada", disse.

"As exportações bolivianas vinham registrando crescimento sustentável, em torno de 5% a 10% ao ano, graças a esta tarifa zero de exportação", afirmou Pou Munt.

Segundo a imprensa local, o governo boliviano estima que esta preferência tarifária americana está diretamente ligada a cerca de 100 mil postos de trabalho no país.

O ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuanca, reagiu à iniciativa de Bush afirmando que ela "é mais uma agressão do presidente Bush contra nosso país".

A ATPDEA oferece tarifa zero nas exportações de alguns produtos em troca da erradicação de drogas na Comunidade Andina - além da Bolívia, Peru, Colômbia e Equador fazem parte do programa.

O benefício foi implementado nos anos 1990 e renovado no início dos anos 2000. Com esta lei, pretende-se estimular a geração de empregos e evitar a busca de ocupação no tráfico de drogas.

Queda nas exportações
De acordo com dados da Câmara de Exportadores de La Paz, a Bolívia exportou US$ 377 milhões para o mercado americano no ano passado. Estima-se que pelo menos 40% do total é representado por produtos com preferências tarifárias.

No caso da Bolívia, a ATPDEA beneficia os setores têxtil e de couro.

Segundo Pou Munt, no início deste ano, a expectativa era de que as exportações bolivianas para o mercado americano chegassem a US$ 420 milhões.

O presidente da Câmara Nacional de Exportadores, Eduardo Bracamonte, afirma que as vendas da Bolívia para os Estados Unidos serão "fortemente" afetadas, após a iniciativa de Bush - que ainda depende de trâmites burocráticos e aprovação parlamentar para entrar em vigor.

"Mas já consideramos uma decisão tomada e lamentamos muito por isso", disse Bracamonte.

Drogas
Na semana passada, o governo americano alertou a Bolívia para os "poucos efeitos" de seus programas de combate às drogas. Esse teria sido, oficialmente, um dos principais motivos para a suspensão da ATPDEA para a Bolívia.

No início desta semana, ao discursar na Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York, Morales reiterou suas críticas ao governo americano e ressaltou que Bush critica o terrorismo, mas não cita o que a direita tentou contra ele na Bolívia, o que Morales classifica como "um golpe civil empresarial e estadual".

Nesta sexta-feira, o secretário geral da OEA (Organização de Estados Americanos), o chileno José Miguel Insulza, disse à imprensa do Chile que não acredita que os Estados Unidos tenham intenção de derrubar o governo Morales.

"Acho que Estados Unidos não querem esse tipo de problemas na região porque têm muitos outros para enfrentar".

A expectativa era de que o Congresso americano definisse em dezembro, após as eleições presidenciais, de novembro, se ampliará ou não a ATPDEA.

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