EUA condenam 'campanha de intimidação' à imprensa no Egito

Governo americano diz que ataque a jornalistas estrangeiros no Cairo é "totalmente inaceitável"

iG São Paulo |

AP
Fotógrafos (um deles da agência AP) se protegem durante confrontos no centro do Cairo

O governo americano condenou os ataques a jornalistas estrangeiros no Cairo, capital do Egito, em meio a choques entre manifestantes pró e contra o presidente Hosni Mubarak. Para os EUA, há no país uma "campanha para intimidar" os profissionais estrangeiros, de acordo com o porta-voz do Departamento de Estado, P.J. Crowley.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, pediu nesta quinta-feira ao governo egípcio e à oposição que comecem "imediatamente" negociações sérias para uma transição. "Peço ao governo e a uma representação ampla e crível da oposição, sociedade civil e facções políticas do Egito que comecem imediatamente negociações sérias para uma transição pacífica e ordenada", disse Hillary. "O povo egípcio espera um processo coerente que produza mudanças concretas", disse a chefe da diplomacia americana.

Mais cedo, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs afirmou que os ataques a jornalistas eram "totalmente inaceitáveis". "Todos os jornalistas que foram detidos devem ser liberados imediatamente", afirmou.

Vários jornalistas de diferentes países foram agredidos nos arredores da praça Tahrir, no centro do Cairo. Dois tanques do Exército transportaram cerca de 30 profissionais estrangeiros onde o repórter do iG está hospedado, Ramsés Hilton, muito próximo à praça, para o hotel Marriott, mais afastado.

No Hilton, jornalistas estão impedidos de filmar, dos seus quartos, a praça Tahrir, sob a alegação de que isso pode pôr a segurança do hotel em risco. Nesta manhã, inúmeras vezes guardas do estabelecimento subiram às pressas para os quartos de onde havia câmeras operando. Eles também tentaram confiscar a câmera de vídeo de um cinegrafista inglês e pediram que esse tipo de equipamento fosse deixado na recepção para quem fica nos quartos diante da praça.

Na quarta-feira, homens de terno entraram nos quartos de outros três repórteres brasileiros, da "Folha de S.Paulo", "O Globo" e "O Estado de S.Paulo", em busca de equipamento fotográfico com imagens do confronto. A direção do hotel informou que vai expulsar os hóspedes que insistirem em filmar.

Brasileiros detidos

Enviados ao Cairo para a cobertura dos protestos no Egito , o repórter Corban Costa, da Rádio Nacional, e o repórter cinematográfico Gilvan Rocha, da TV Brasil, foram detidos, vendados e tiveram passaportes e equipamentos apreendidos na quarta-feira.

De acordo com a Agência Brasil, os dois repórteres brasileiros passaram a madrugada desta quinta-feira trancados em uma delegacia do Cairo, em uma sala sem janelas e com apenas duas cadeiras e uma mesa.

“É uma sensação horrível. Não se sabe o que vai acontecer. Em um primeiro momento, achei que seríamos fuzilados porque nos colocaram de frente para um paredão, mas, graças a Deus, isso não aconteceu”, afirmou Corban, que juntamente com Gilvan volta para o Brasil na sexta-feira.

Para serem liberados, os repórteres disseram ter sido obrigados a assinar um depoimento em árabe, no qual, segundo a tradução do policial, ambos confirmavam a disposição de deixar imediatamente o Egito rumo ao Brasil. “Tivemos que confiar no que ele [o policial] dizia e assinar o documento”, contou Corban.

No caminho da delegacia para o aeroporto do Cairo, Corban disse que todos os automóveis eram parados em fiscalizações policiais e os documentos dos passageiros, revistados. Os estrangeiros são obrigados a prestar esclarecimentos. De acordo com o repórter, o taxista sugeriu que ele omitisse a informação de que era jornalista.

Outro jornalista brasileiro, Luiz Antônio Araujo, contou ter sido atacado e roubado por um grupo de 50 partidários do presidente Mubarak. Enviado especial do jornal "Zero Hora" e da rede RBS ao Egito, Araujo disse ter sido cercado por um grupo de pessoas munidas de pedras e facas, que roubaram sua câmera digital e sua carteira.

De acordo com o jornalista, o ataque aconteceu nesta quinta-feira, quando ele tentava entrar na praça Tahrir. Araujo contou que soldados do Exército egípcio viram o roubo, mas não esboçaram qualquer reação.

Censura e intimidação

O enviado especial da BBC ao Egito Rupert Wingfield-Hayes contou que na quarta-feira foi detido pela polícia secreta egípcia, algemado e vendado. Os policiais prenderam-no por três horas, interrogaram-no e depois o soltaram.

A emissora Reuters Television relatou que integrantes de sua equipe foram agredidos nesta quinta-feira perto da Praça Tahrir, enquanto registravam imagens para uma reportagem sobre bancos e lojas que foram obrigadas a fechar durante os confrontos entre as duas facções. Eles teriam sido agredidos, ameaçados e xingados. Sua câmera, microfone e tripé foram destruídos.

Na quarta-feira, a veterana jornalista Christiane Amanpour, da rede ABC News, contou ter sido cercada por militantes quando tentava entrevistar um ativista pró-Mubarak, e eles teriam gritado: ''vá para o inferno'' e ''nós odiamos os Estados Unidos''.

O repórter da rede CNN, Anderson Cooper, disse que, ao entrar na praça, ele, um produtor e um cinegrafista foram cercados por uma multidão, que começou a socá-los e a tentar e tomar suas câmeras. A rede de TV americana CBS informou que integrantes de sua equipe foram forçados a abandonar a praça Tahrir não sem antes entregar suas câmeras sob a mira de armas por supostos militantes pró-governo.

De acordo com a entidade não-governamental Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), com sede em Nova York, essas agressões estariam diretamente ligadas à tentativas do governo egípcio de intimidar ou censurar jornalistas.

"O governo egípcio está empregando uma estratégia de eliminar testemunhas de suas ações'', afirmou à agência o coordenador de Oriente Médio e África da organização, Mohamed Abdel Dayem. Segundo ele, as ações constituem ''ataques deliberados contra jornalistas realizados por hordas pró-governo''.

Com Agência Brasil, AP, BBC e reportagem de Raphael Gomide, enviado ao Cairo

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