Estudo revela estupro em larga escala em região do Congo

Um novo relatório da ONG britânica Oxfam com quatro mil mulheres vítimas de estupro no leste da República Democrática do Congo revelou que 60% das vítimas foram violadas por grupos de homens armados.

BBC Brasil |

As vítimas foram entrevistadas na Província de Kivu do Sul, região aterrorizada por conflitos entre tropas do governo e milícias rebeldes, para este estudo de quatro anos, e mais da metade disse que os ataques foram realizados em suas casas.

Só no ano passado, a ONU disse que mais de 5 mil pessoas foram estupradas na província de Kivu do Sul.

Uma das entrevistadas disse aos pesquisadores: "O meu marido e eu estávamos dormindo na nossa casa. As crianças estavam dormindo na casa ao lado. Os soldados chegaram e trouxeram a minha filha para a nossa casa, onde a estupraram na minha frente e do meu marido. Depois eles exigiram que o meu marido estuprasse a minha filha mas ele se recusou. Eles atiraram nele".

"E então eles entraram na outra casa, onde encontraram meus três filhos. Eles mataram todos os meus três meninos. Depois de matá-los, dois soldados me estupraram, um após o outro".

Tropas da Organização das Nações Unidas (ONU) no país estão apoiando esforços para derrotar rebeldes ligados ao genocídio ocorrido no país vizinho, Ruanda, em 1994.

Mas a pesquisa mostra que quando essas ofensivas apoiadas pela ONU são realizadas, as mulheres ficam ainda mais vulneráveis.

Crime impune

Estupro é usado como punição e arma de guerra tanto pelo governo congolês como por soldados rebeldes. A Oxfam observou, contudo, que houve um grande aumento no número de estupros praticados por civis.

Em 2004, apenas 1% dos estupros eram cometidos por civis, mas em 2008, eles eram responsáveis por mais de 38% desses ataques, de acordo com o relatório.

De acordo com o documento, a percepção de que este é um crime impune está aumentando.

A dimensão do problema no Congo é divulgada em um momento em que a Organização das Nações Unidas (ONU) discute a possibilidade de retirar seus 22 mil soldados do país.

A Oxfam disse que as mulheres congolesas vão ficar ainda mais vulneráveis se as tropas deixarem o país africano.

A ONG quer que os países mais ricos ajudem a melhorar a oferta de assistência médica para pessoas que sobreviveram a violência sexual no Congo. Segundo a organização, só há um hospital em Kivu do Sul que oferece apoio adequado a pessoas que sofreram estupro.

"Panzi é o único hospital desse tipo em Kivu do Sul, que abriga cerca de 5 milhões de pessoas", disse Krista Riddley, Diretora de Política Humanitária da Oxfam. "Muitas mulheres de áreas rurais não conseguem viajar até lá e, com frequência, há mortes por complicações associadas a estupros brutais (...) Todas as mulheres deveriam ter a possibilidade de receber o tratamento de que necessitam".

A República Democrática do Congo tem grandes reservas minerais e tem um longo histórico de conflito. O país enfrenta cinco anos de combates entre forças do governo apoiadas por Angola, Namíbia e Zimbábue e rebeldes, apoiados por Uganda e Ruanda.

Apesar de um acordo de paz e da formação de um governo de transição em 2003, a população do leste do país vive aterrorizada por milícias e soldados.

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