O Brasil deve perder participação nas exportações mundiais nos próximos anos, especialmente no setor de manufaturados, indica um estudo com projeções até 2030 divulgado nesta terça-feira pela FGV Projetos e pela consultoria Ernst & Young. Segundo as projeções apresentadas no documento Brasil Sustentável - Horizontes da Competitividade Industrial, até 2030 as exportações brasileiras de manufaturados deverão crescer a uma média de 1,8% ao ano, enquanto as importações mundiais devem crescer 3,7% ao ano.

O cenário projetado no estudo prevê crescimento econômico de 4% ao anoe aumento de 3,8% ao ano no consumo das famílias. Os analistas traçamainda um segundo cenário, mais positivo, com crescimento de 4,6% ao anoe aumento de 4% no consumo. Mesmo assim, as exportações manufatureiras cresceriamapenas 2,7% ao ano, ritmo ainda abaixo do aumento das importações mundiais.

"Ainda assim seria insuficiente para reverter a tendência de deterioração do saldo comercial", disse um dos autores do estudo, Fernando Garcia, professor da FGV Projetos.

De acordo com os autores do estudo, o aumento insuficiente da competitividade fará com que o perfil das exportações brasileiras seja cada vez mais de produtos básicos.

Essa falta de competitividade é atribuída a fatores como custo crescente de energia, gargalos em infra-estrutura, um sistema tributário que encarece o preço final dos bens e investimentos insuficientes em pesquisa e desenvolvimento.

As projeções indicam que até 2030 as importações de produtos manufaturados deverão crescer a uma taxa de 5,6% ao ano no Brasil.

O estudo prevê que em 2030 as importações mundiais de manufaturas totalizem US$ 19,67 trilhões. Nesse cenário, o Brasil teria uma participação de apenas 0,9%, com exportações de US$ 182,67 bilhões. Hoje a participação brasileira é de 1,1%, segundo os autores do documento.

Mercado interno

Segundo os autores do estudo, há uma certa despreocupação em relação a esse cenário porque a previsão é de um grande crescimento na demanda doméstica até 2030.

"A dinâmica interna está puxando esses produtos para o mercado doméstico", disse Garcia. "Essas projeções não significam que a indústria brasileira não tenha perspectiva, mas a perspectiva é doméstica."

Os autores do estudo alertam, no entanto, que o aumento do consumo interno não quer dizer necessariamente que esse mercado será abastecido por indústrias nacionais.

"Não significa que vão ser as indústrias aqui instaladas que vão atender o mercado doméstico", disse Luiz Passetti, sócio da Ernst & Young. "O investimento em competitividade é importante para atender a essa demanda."

O estudo indica que o Brasil investe apenas 1% de seu PIB (Produto Interno Bruto) em pesquisa e desenvolvimento. Esse baixo nível de investimento, afirmam os analistas, resulta em menor progresso tecnológico na indústria manufatureira.

As projeções dos analistas consideram um aumento de 30% no preço da energia elétrica até 2030, e o barril de petróleo cotado a US$ 60, valor 117% superior ao preço médio dos últimos 17 anos.

Esse aumento nos custos também terá grande impacto nas indústrias, dizem os analistas. Em setores como a indústria de cimento, por exemplo, a energia representa 15% dos custos totais.

O estudo sobre competitividade industrial é o quarto de uma série de cinco publicações da FGV Projetos e da Ernst & Young que analisam também o mercado habitacional, de energia, o potencial de consumo e as perspectivas na agroindústria.

Os analistas envolvidos na elaboração do documento afirmam que as projeções já foram feitas considerando um cenário "conservador" e que os efeitos da crise econômica atual seriam historicamente compensados no horizonte de tempo abordado.

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