Estudo francês diz que tropas da ONU levaram cólera ao Haiti

Relatório apresentado à chancelaria francesa indica que epidemia surgiu em acampamento de tropas nepalesas; ONU rejeita conclusão

AFP |

A epidemia de cólera que castiga o Haiti começou em um acampamento dos soldados de paz nepalesas das Nações Unidas, afirma um especialista em um relatório apresentado ao Ministério das Relações Exteriores da França, informou nesta terça-feira uma fonte ligada ao caso.

Segundo a fonte, o respeitado epidemiologista francês Renaud Piarroux conduziu um estudo no Haiti em novembro e concluiu que a epidemia começou com uma cepa importada da doença que poderia ser rastreada até a base nepalesa.

"A fonte da infecção veio do acampamento nepalês", disse a fonte à AFP, sob a condição do anonimato, por não ter sido autorizada a discutir um estudo que ainda não foi tornado público. "O ponto de partida foi localizado de forma muito precisa", afirmou, apontando para a base da ONU em Mirebalais, no rio Artibonite, região central do Haiti.

"Não há outra explicação possível, considerando-se que não havia cólera no país e levando em conta a intensidade e a velocidade de disseminação e a concentração da bactéria no delta do Artibonite", enfatizou. "A explicação mais lógica é a introdução maciça de matéria fecal no rio Artibonite em uma única ocasião", acrescentou.

As Nações Unidas, que enfrentaram protestos violentos no Haiti sobre sua suposta responsabilidade na epidemia, que matou 2 mil pessoas e deixou 90 mil doentes, insiste que não há evidências da culpa de suas tropas no surto da doença.

A ONU reagiu à informação dizendo que não existem "provas conclusivas" de que a epidemia tenha começado no campo de capacetes azuis do Nepal.

O porta-voz da chancelaria francesa, Bernard Valero, não revelou a conclusão do estudo, mas confirmou que o Ministério das Relações Exteriores tinha recebido uma cópia e disse que havia sido enviada às Nações Unidas para investigar.

"Depois do surgimento da epidemia, a França enviou ao Haiti, a pedido do Ministério da Saúde haitiano, um de seus maiores especialistas em cólera, o professor Piarroux, diretor do Departamento de Hospitais Públicos de Marselha", afirmou.

A epidemia de cólera tornou ainda mais difícil a situação no miserável país caribenho, que foi devastado por um forte terremoto em janeiro que deixou pelo menos 250 mil mortos e 1,3 milhão de desabrigados vivendo em tendas de campanha.

No mês passado, Piarroux discutiu seu estudo durante uma entrevista à AFP. Ele não culpou diretamente os nepaleses na ocasião, mas disse que o cólera teria vindo de fora do Haiti. A epidemia "começou no centro do país, não na costa nem nos campos de refugiados. A epidemia não pode ter origem local, o que significa que foi importada", afirmou, logo após retornar do Haiti.

Segundo autoridades haitianas, os primeiros casos de cólera, uma doença de trasmissão pela água, surgiram nas margens do rio Artibonite, perto da base das Nações Unidas. Ao defender no mês passado os nepaleses, que foram alvo de protestos, Edmond Mulet, chefe da Missão das Nações Unidas no Haiti, disse que os exames não haviam apontado nenhum caso positivo de cólera entre os soldados da ONU, os policiais ou funcionários civis .

Segundo Mulet, todas as amostras retiradas de latrinas, cozinhas e suprimentos de água no campo nepalês suspeito tiveram resultado negativo. "Não há evidência científica de que o acampamento em Mirebalais seja a fonte da epidemia", disse, reclamando da existência de "muita desinformação e muitos boatos a respeito dessa situação".

Mas Piarroux, que trabalha na Universidade do Mediterrâneo em Marselha, disse que o surto não estava ligado à devastação do terremoto e poderia não ter tido origem no Haiti. "A epidemia surgiu de forma extremamente violenta em 19 de outubro, com alguns milhares de casos e algumas centenas de mortes, depois que muitas pessoas beberam água no delta do Artibonite", disse.

O professor disse que o mundo não via um surto de cólera que se disseminasse tão rapidamente desde a epidemia registrada em Goma, leste do Congo, em 1994. O cólera é causado por bactérias que proliferam em água ou comida contaminada, frequentemente por fezes. Se não for tratada, a doença pode matar de desidratação em um dia. As pessoas mais vulneráveis são os mais jovens e os idosos.

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