Estudo denuncia ausência de ética profissional médica em Guantánamo

Cientistas americanos denunciaram, em estudo publicado na revista britânica The Lancet, a ausência de ética profissional entre os médicos da prisão de Guantánamo, e o papel do Exército dos Estados Unidos nestas falhas.

AFP |

O centro de detenção mais controvertido do mundo, que abrigou até 800 prisioneiros desde sua abertura, em janeiro de 2002, deve fechar suas portas até janeiro de 2010. Segundo os autores do estudo, Guantánamo "afetou a integridade dos médicos que trabalham para o exército e para a CIA".

No estudo, George Annas, professor da Universidade de Boston (nordeste dos EUA), e Leonard Rubenstein, diretor executivo da organização Physicians for Human Rights, mencionaram dois pontos cruciais: "o uso de brutalidade nos interrogatórios" e "a alimentação forçada dos prisioneiros em greve da fome".

Denunciando o fato de o governo de Barack Obama recusar qualquer investigação independente na prisão, os autores do estudo criticaram duramente os dados colocados à sua disposição, que consistem em um relatório de 81 páginas elaborado em fevereiro pelo Pentágono que reafirma a conformidade do campo de Guantánamo com as Convenções de Genebra.

"O uso da força para alimentar um homem consciente, em greve da fome, foi condenado pela Associação Médica Internacional como uma forma de tratamento desumano e degradante, proibido pelas Convenções de Genebra", explicaram os autores, destacando que o Conselho Bioético instaurado pelo antecessor de Obama, o republicano George W. Bush, chegou a qualificar esta prática de "tortura".

Os pesquisadores lembraram que de 25 a 50 detentos - de um total de 229 - estão observando, ou observaram nos seis últimos meses, uma greve da fome. Eles denunciaram o fato de os comandantes militares terem decidido de forma arbitrária quem deveria ser alimentado à força, ressaltando que cabia a um médico tomar tal decisão.

Os autores do estudo também consideraram que a utilização de psicólogos e psiquiatras para participar dos interrogatórios dos detentos "desrespeita os princípios éticos fundamentais das profissões médicas".

"Os interrogatórios incluem quase sempre técnicas para aumentar o estresse, a ansiedade e o medo dos prisioneiros, e são incompatíveis com as obrigações" dos médicos, afirmaram os pesquisadores.

Interrogatórios e alimentação à força "requerem dos médicos uma ausência total de ética", criticaram.

Na conclusão, os autores do estudo pediram ao Pentágono que "abandone estas práticas, inclusive o recurso a médicos para fornecer assistência durante os interrogatórios e a alimentação forçada, o que contraria a ética profissional"; pedem, também a autorização para "uma avaliação independente da saúde física e mental" dos prisioneiros e a instalação de comissão de investigação independente "com enfoque especial no papel dos médicos e dos psicólogos".

lum/yw/sd

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG