Antonio Pita Jerusalém, 17 abr (EFE).- Stalin, Hitler, Videla, Pol Pot e Pinochet não compartilhavam apenas regimes ditatoriais, mas também, possivelmente, características em um de seus genes, segundo descobriu o pesquisador israelense Richard P.

Ebstein.

"É evidente que os ditadores são egoístas e pode ser que sua falta de interesse pelos demais tenha um componente genético", explicou à Agência Efe Ebstein, diretor do Centro de Genética Humana da Universidade Hebraica de Jerusalém.

A chave está no gene AVRP1, que permite a atuação sobre o cérebro da vasopresina, um hormônio que se vincula à sociabilidade e à afetividade dos mamíferos.

Quanto maior a quantidade desse gene, maior a tendência ao altruísmo (e vice-versa), segundo a equação já descoberta pelos cientistas em 2005.

Ebstein deu um passo a mais ao vincular generosidade, características genéticas e talvez, inclusive, ditaduras, a partir das conclusões de um estudo publicado na edição deste mês da revista científica "Genes, Brain and Behaviour".

O cientista recorreu, para isso, ao chamado "jogo do ditador", com 203 estudantes universitários, que foram divididos em tiranos e receptores.

Os "ditadores" receberam, cada um, 50 shekels (cerca de US$ 14) para que decidissem livremente se os repartiriam, ou não, entre os "receptores".

Menos de um quinto ficou com todo o dinheiro, enquanto cerca de 50% deu a metade do dinheiro.

"O interessante do exercício é que não existe condicionante algum para entregar o dinheiro, e por isso mede o altruísmo em estado puro", diz Ebstein.

A conclusão do experimento foi de que aqueles estudantes com o promotor (parte fundamental do gene) AVRP1 mais longo deram cerca de 50% mais de dinheiro do que seus companheiros com o promotor mais curto.

"Não é que o gene determine a avareza ou o altruísmo, mas sim a distribuição da vasopresina, de modo que uma ação generosa possa gerar menos prazer em algumas pessoas do que em outras", afirma o cientista.

Para Ariel Knafo, outro integrante da equipe pesquisadora, é "a primeira prova de que existe uma relação entre uma variabilidade do DNA e o autêntico altruísmo humano".

Para Ebstein, nem tudo está nos genes. O cientista reconhece também a importância do ambiente na formação da personalidade, na mesma linha dos biólogos que vão além do determinismo extremo.

"Para mim, o egoísmo, assim como o comportamento criminoso, é metade ambiental, metade genético", afirma.

Um ambiente adequado pode diluir a predisposição à avareza inscrita no DNA de um ser humano, enquanto um péssimo ambiente vital talvez seja implacável para aquele geneticamente predisposto à solidariedade e à entrega.

Outros pesquisadores desconfiam, no entanto, da confiabilidade do "jogo do ditador" e, portanto, das conclusões que possa originar.

Por exemplo, Gary E. Bolton e Rami Zwick explicaram há anos no "International Journal of Game Theory" que os "ditadores" que dão dinheiro não o fazem porque se preocupam com o bem-estar alheio, mas por uma série de "regras pessoais e sociais que inibem o comportamento interesseiro".

"Inclusive dentro dessas regras, os ditadores se comportam de maneira interessada, pois guardam o que consideram que lhes corresponde justamente", afirmam.

Já Nicholas Bardsley, da Universidade de Southampton, comprovou que basta dar três opções - ficar com todo o dinheiro, doá-lo todo ou abrir mão para outro -, para que as "cobaias" humanas tenham menos contemplações com o próximo.

Ou seja, a escolha de quanto dinheiro doar nasce de um cálculo pessoal do que se considera justo, o que varia em função do leque de opções existentes.

Ebstein ilustra sua conclusão com uma pequena piada: "Se Stalin tivesse vivido na Califórnia não teria sido um ditador. Talvez quisesse amassar muito dinheiro". EFE ap/mac/fb

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