Estudantes poloneses contestaram poder vigente em 1968

A Polônia viveu no começo de 1968 uma das primeiras revoltas estudantis desse ano na Europa. Severamente reprimidas, foram exploradas para lançar uma campanha anti-semita de grande envergadura.

AFP |

Tudo começou com a peça de teatro "Os antepassados", numa tradução livre, do poeta romântico polonês do século XIX Adam Mickiewicz, que as autoridades consideravam contra a Rússia.

Sua proibição pela censura provocou uma manifestação espontânea por parte dos estudantes em frente ao monumento do poeta em Varsóvia. Seus líderes foram expulsos da universidade e em 8 de março começou um ciclo de manifestações e repressão que se estendeu a outros centros e cidades.

No dia 8 de março, centenas de estudantes se reuniram nas proximidades da Universidade para protestar contra a expulsão de estudantes contestadores e para exigir mais democracia na Polônia.

Os manifestantes foram dispersados com violência, muitos foram detidos. Nos dias que se seguiram, a contestação tomou conta de outros estabelecimentos, como a Escola Politécnica de Varsóvia e as Universidades da Cracóvia (sul) ou de Wroclaw (sudoeste).

"A revolta espontânea dos estudantes foi para o chefe do PC polonês na época, Wladyslaw Gomulka, um bom pretexto para se impor aos seus rivais na disputa pelo poder", considera o historiador polonês Dariusz Stola.

"Criticado por sua tendência autoritária por militantes comunistas de origens judaicas e intelectuais, Gomulka teve a chance de desacreditá-los, já que um bom número de líderes da revolta estudantil eram filhos ou filhas de intelectuais judeus comunistas", como Adam Michnik, hoje diretor do jornal polonês Gazeta Wyborcza, explicou Stola à AFP.

Segundo Stola, "Gomulka tinha muito medo de que a Polônia fosse 'contaminada' pelas reformas tchecoslovacas da Primavera de Praga", esmagada pelos tanques do Pacto de Varsóvia em agosto de 1968.

Com a ajuda da polícia política e dos radicais do partido, o chefe do PC polonês, Wladyslaw Gomulka, deu início à caça ao "judeu comunista". Aproximadamente 20 mil pessoas abandonaram o país e 13.500 delas perderam a nacionalidade entre 1968 e 1970, segundo documentos dos arquivos.

"Não tenho sentimento algum de nostalgia por meu país natal", afirma Nelly Plotzker, 62 anos, que fugiu da Polônia em 1968 para viver em Israel.

"Vimos que era preciso partir e fizemos o que as autoridades nos fizeram fazer", conta ela à AFP.

Malgorzata Melchior, 57 anos, decidiu em 1968 permanecer na Polônia.

"Meu irmão mais velho decidiu emigrar para a Suécia. Nosso pai queria sair também, mas eu, uma estudante de 17 anos, não queria ouvir falar disso", conta ela.

Um grupo de intelectuais poloneses, dentre os quais o cineasta Andrzej Wajda e o Prêmio Nobel de literatura Wislawa Szymborska, recentemente lançaram um apelo ao presidente Lech Kaczynski para pedir uma restituição automática da nacionalidade polonesa aos judeus obrigados a emigrar em 1968.

"Entre os crimes comunistas, a infâmia de março de 1968 permanece como um evento que pesa particularmente sobre a consciência polonesa", escreveram os signatários do apelo.

Em março passado, o ministro do Interior polonês, Grzegorz Schetyna, passou a expedir certificados de nacionalidade polonesa às pessoas que a perderam em 1968.

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