Por Luis Báez Assunção, 21 abr (EFE).- Com a eleição do ex-bispo católico Fernando Lugo como próximo presidente do Paraguai, os Governos de esquerda se consolidam na América do Sul, onde a única exceção é o colombiano Álvaro Uribe.

A quebra de 61 anos de hegemonia do Partido Colorado, o mais antigo no poder na América Latina, representa o alinhamento do Paraguai aos Governos de esquerda dos demais países fundadores do Mercosul (Argentina, Brasil e Uruguai), embora o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva tenha dito que não considera o presidente eleito de esquerda.

Lugo, de 56 anos e suspenso "a divinis" pelo Vaticano em 2006, após renunciar a seu estado clerical antes de se lançar na política, admitiu hoje que a Aliança Patriótica para a Mudança (APC), a coalizão pela qual venceu o pleito, faz parte desse auge da nova esquerda latino-americana.

"Pela formação da Aliança em certo aspecto sim; ali há propostas, partidos e movimentos de esquerda em relação direta com os Governos progressistas da América Latina", disse Lugo a um grupo de jornalistas.

O ex-bispo esclareceu, no entanto, que na coalizão coabitam grupos de ideologias antagônicas como o centenário Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA, centro-direita), segundo maior do país, e o Movimento Popular Tekojoja (MPT) e o Partido do Movimento ao Socialismo (P-MAS), os mais combativos entre os aliados de esquerda.

Destacou que os setores mais conservadores da Aliança, que chegará ao poder no Paraguai com oito meses de existência, "têm posturas firmes, e convicções em relação aos outros Governos da América Latina".

Apesar de se declarar de centro como o "poncho juruícha" (centro do poncho, em guarani) como gosta de se definir para dar a entender que não transita pelos extremos, Lugo não escondeu sua admiração pelos Governos de Hugo Chávez, Evo Morales, Tabaré Vázquez, Michelle Bachelet e Cristina Fernández de Kirchner.

Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também fazer parte deste grupo, o ex-bispo mantém certa reserva ao brasileiro, devido às exigências do presidente eleito no Paraguai sobre os lucros que seu país recebe da hidroelétrica binacional de Itaipu.

Lula, por sua vez, disse que não considera Lugo um esquerdista.

O Paraguai explora com o Brasil a maior hidrelétrica do mundo em funcionamento, construída sobre o Rio Paraná, e Lugo levantou como promessa de campanha a revisão do preço da energia excedente, ao que o Governo brasileiro se opõe taxativamente.

Lula foi o único governante da região que ainda não o telefonou nas últimas horas, depois que Hugo Chávez, Cristina Fernández de Kirchner - do Equador, onde está em visita oficial -, Michelle Bachelet e Evo Morales foram os primeiros a cumprimentá-lo pela vitória eleitoral.

Lugo também se esforçou em se distanciar da forma de governar de Chávez na Venezuela, de Rafael Correa no Equador, ou de Morales na Bolívia, ao afirmar que sua visão política aponta para um esquema autóctone, porque considera que seu país tem que seguir um caminho diferente "com identidade própria".

No entanto, a sombra de Chávez rondou nos dias anteriores à votação, quando o atual chefe de Estado, Nicanor Duarte, acusou Lugo de receber ajuda por parte dele e inclusive denunciou a chegada ao país de supostos "agitadores" vindos de Venezuela, Bolívia e Equador para tumultuar o pleito.

No entanto, os planos de Lugo de expropriar terras distribuídas durante o período da ditadura no país também fez dele um alvo de críticas de empresários, principalmente de grandes fazendeiros, que ainda o vinculam a invasões de propriedades na época em que foi bispo de São Pedro (centro), região mais pobre do país.

Lugo também está disposto a uma aproximação diplomática com a China, sem que isso represente um corte nos laços com Taiwan - que tem o Paraguai como único aliado na América do Sul - com o que pretende manter "o equilíbrio justo" nas relações de seu país com o exterior. EFE lb/ev/fb

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