Jorge Figueroa Montevidéu, 24 mai (EFE).- A mudança de época que vive a América Latina com a chegada de vários partidos de esquerda ao Governo, os desafios que isso representa e a agenda social da região integram o debate do XIV Foro de São Paulo que acontece no Uruguai até o próximo domingo.

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Guatemala, Nicarágua, Uruguai e Venezuela "são governados por forças de esquerda e progressistas", e em países aonde essas forças ainda não chegaram ao poder, como a Colômbia e o México, "estão sendo criadas unidades de forças com a intenção de alcançar esta meta", segundo informa o documento base - debatido pelos cerca de 200 presentes no foro e ao qual a Agência Efe teve acesso.

Além disso, o texto diz que houve uma mudança na característica social dos governantes em casos paradigmáticos como, por exemplo, o dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o do indígena Evo Morales, na Bolívia.

Uma vez no poder, os partidos de esquerda e progressistas "devolveram a cidadania plena a vários setores excluídos e defenderam os direitos humanos em toda a sua extensão imaginável", assinala o documento de análise denominado "A Esquerda da América Latina e Caribe no Novo Tempo - A riqueza da diversidade".

Entre os esforços a favor dos mais desprotegidos economicamente, destacam-se os programas "Fome Zero", de Brasil e Nicarágua, o "Plano de Emergência Social", do Uruguai, e o "Apoio Decidido", dos Governos da Bolívia, do Equador e da Venezuela a favor dos "setores marginalizados".

Igualmente, "médicos e educadores cubanos" contribuíram para "sensíveis melhoras" nos serviços sanitários e de ensino na Bolívia e na Venezuela, destaca o documento.

No plano econômico, um aspecto comum a vários Governos (Argentina, Brasil, Uruguai e Venezuela) foi "o corte do cordão umbilical" com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o que deixou esses países livres da submissão.

Outros Governos de esquerda, como o boliviano e o venezuelano, "nacionalizaram setores-chave da economia em uma afirmação da soberania frente às transnacionais".

Apesar dos pontos positivos que existem na América Latina e no Caribe, nesta "mudança de época", pela qual a região passa, ainda resta muito a ser feito, diz o documento.

O aumento do peso eleitoral e a ação dos Governos de vários dos partidos que integram o Foro de São Paulo "nos responsabilizam a desenvolver e a impulsionar uma agenda política, social e econômica para a região, que foi projetada para um novo século e para um novo tempo latino-americano".

As correntes progressistas e de esquerda "lutaram muito no passado para recuperar a democracia após numerosas ditaduras, e é preciso defendê-la e aperfeiçoá-la", ressalta.

Um dos desafios que os participantes destacam na reunião de Montevidéu é "propor reformas institucionais que corrijam as distorções dos sistemas políticos e partidários onde existir" e, além disso, "impulsionar mudanças que impliquem em melhorar a representação de parlamentares das minorias".

"Fortalecer a democracia tem um ponto nevrálgico no uso democrático da imprensa e a necessidade de eliminar a incidência econômica como padrão de acesso ao uso dos mesmos", afirma a proposta em debate.

Também se deve "velar por um sistema transparente de financiamento dos partidos políticos".

Outro dos pontos considerados "fundamentais" por delegados de vários partidos participantes do XIV Foro de São Paulo é "desenvolver uma cultura de aceitação da diversidade" que representa todas as correntes progressistas e de esquerda da América Latina e do Caribe, "abandonando as práticas sectárias e excludentes".

O combate à pobreza "deve continuar sendo prioridade comum", mas "não se deve confundir com o combate à desigualdade".

Na América Latina e no Caribe, os 10% mais ricos da população recebem 48% do total da renda, e os 10% mais pobres, apenas 1,6%.

"Combater efetivamente a desigualdade é talvez o desafio mais difícil que os partidos políticos latino-americanos tenham", alerta o documento.

À margem das discussões, a senadora opositora colombiana Gloria Inés Ramírez se referiu à investigação que a procuradoria de seu país abriu contra ela e contra outras 11 pessoas por suas supostas ligações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e disse que ninguém os obrigará a calar.

Ramírez reafirmou a intenção de seu partido, o Pólo Democrático Alternativo (PDA), e de todos os envolvidos na investigação judicial, de "seguir trabalhando" para conseguir que a Colômbia tenha um Governo "diferente" e, assim, terminar com o que definiu como uma "anomalia na América Latina".

O Foro de São Paulo foi criado em 1990 por 48 partidos e movimentos sociais de esquerda, e atualmente é formado por cerca de 70 organizações. EFE jf/fh/fb

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