Esquerda chilena sofre duro golpe em 2009 e pode ter de deixar poder

Manuel Fuentes. Santiago do Chile, 23 dez (EFE).- A presidente chilena, Michelle Bachelet, vai concluir seu mandato em março de 2010 sendo a governante mais popular da América, mas mesmo com oito de cada dez chilenos apoiando sua gestão, na eleição presidencial de janeiro a coalizão de centro-esquerda Concertação pode perder o poder que exerce há 20 anos.

EFE |

Em janeiro de 2000, o candidato direitista Joaquín Lavín ficou a apenas 30.000 votos de Ricardo Lagos. Seis anos depois, o empresário Sebastian Piñera precisou de 250.000 votos para ganhar de Michelle Bachelet, mas no dia 13 de dezembro abriu 14 pontos de vantagem no primeiro turno sobre o candidato da Concertação, o ex-presidente Eduardo Frei.

Este resultado foi comemorado pela Coalizão pela Mudança, que vê mais perto que nunca a possibilidade de a direita voltar ao poder pela via democrática 50 anos depois do triunfo de Jorge Alessandri Rodríguez (1958-1964).

A democracia chilena testemunhou este ano um processo eleitoral repleto de surpresas, e que terá o desenlace mais incerto desde o fim do regime de Augusto Pinochet.

Além da reviravolta direitista no primeiro turno da eleição presidencial, o dia 13 de dezembro será lembrado como o dia em que os comunistas voltaram ao Parlamento, de onde estiveram ausentes por 36 anos por causa do golpe militar e de um sistema eleitoral que pune as minorias.

"O modelo baseado em acordos entre as direções dos partidos funcionou muito bem para a transição; mas o sistema está se esgotando e requer um processo de consolidação democrática mais transparente e participativo", disse à Agência Efe o analista político Patrício Navia, professor do Centro de Estudos Latino-Americanos.

Se nas próximas três semanas Frei não conseguir acabar com a diferença em relação a Piñera, a Concertação pela Democracia, formada em 1988 por partidos de centro e esquerda para lutar contra a ditadura, poderia perder o poder que vem exercendo desde que em 1989 o democrata-cristão Patrício Aylwin derrotou por maioria absoluta Hernán Büchi, apoiado por Pinochet.

Mas agora as coisas mudaram, porque segundo os analistas, o candidato da Coalizão pela Mudança recebe votos não só da direita tradicional, mas de um eleitorado que não se considera herdeiro do legado pinochetista e que como o próprio Piñera se distanciou do regime militar.

A deterioração da Concertação começou a ficar evidente após o triunfo da direita nas eleições municipais realizadas em outubro do ano passado.

Esse pleito foi a primeira derrota na história da coalizão governista e gerou disputas internas para escolher o candidato presidencial, em um processo que não contou com eleições primárias dentro dos partidos.

Bachelet reivindicou então união e advertiu que os chilenos estavam dando um aviso à Concertação, mas sua mensagem não foi escutada.

Os chilenos que votaram no primeiro turno se depararam com três candidatos de centro-esquerda: o democrata-cristão Eduardo Frei e os ex-militantes do Partido Socialista Marco Enríquez-Ominami e Jorge Arrate.

Apesar da crise na Concertação e da recessão econômica do último ano, os chilenos avaliam extraordinariamente a gestão de Bachelet, que atualmente conta com um respaldo de quase 80%.

Mas, se a Concertação não sair do buraco em que se encontra, Bachelet, que há quatro anos derrotou a Sebastián Piñera, deverá entregar-lhe em março a faixa presidencial, e o Chile inaugurará uma nova etapa política caracterizada pela alternância. EFE mf/mh

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG