Esquadrão da morte virtual

Eu vou morrer. Você vai morrer.

BBC Brasil |

Nós vamos todos morrer. Como se diz em inglês: de garantido, nesta vida, só os impostos e a morte. Negócio é quando. Deixemos para amanhã esse negócio de bater com as dez, sair na horizontal, vestir o paletó de madeira, e outros eufemismos supostamente engraçadinhos que servem para adoçar a pílula de cianeto (ou o enfarte, a trombose, a isquemia, o carro sem direção) e nos levar - façamos fé, acreditemos - desta para melhor.

Qual a melhor idade para morrer? Sem doença debilitante terrível, um estudo recente feito aqui entre mim e eu mesmo revelou que 100% da matéria de que sou composto escolheria lá pelos 80 anos.

Qual a melhor maneira de morrer? Durante o sono, a mesma pesquisa atesta.

De qualquer forma, a melhor coisa é não falar em morte. Pé de pato mangalô três vezes, toque, toque, toque, bate na madeira.

Só tem o seguinte: a informática não nos deixa esquecer de que somos passageiros, de que a carruagem alada do Tempo corre célere atrás de nós e, qualquer dia, brucutum, conforme se fazia quando da época das mortes menos sofisticadas.

Eu só descobri a coisa graças à morte de Charlton Heston. Graças, no melhor sentido possível. Heston, afinal de contas, embora defendesse o direito dos cidadãos americanos possuírem rifles, carabinas, arcabuzes, qualquer coisa que, disparada numa direção, varasse o "outro" de chumbo, botando-o para jambrar (outro arcaísmo), Heston, gaguejo eu, até os anos 60 era um liberal, compareceu às marchas civis, foi contra a guerra do Vietnã, tudo aquilo que era para ser o politicamente correto de então. Depois deu aquele troço nele que costuma dar nas melhores famílias. Entortou e partiu para a direita. É a vida. Foi sua morte.

Graças à segunda instância - e dessa vez prometo me ater ao assunto - foi que acabei descobrindo que existe um site na Internet que realiza um verdadeiro sweepstake, embora não aceitem apostas em dinheiro, com a lista de quem serão as próximas celebridades a - vamos usar logo o verbo mais simples - morrer.

Digitem aí, se, como eu, são movidos por uma curiosidade malsã, mórbida mesmo: www.deathlist.net. Com sua morte, Charlton Heston deixou o alto da lista dos dez mais cotados para - atenção, vou voltar aos eufemismos - deixar este vale de lágrimas. Não sei se correu dinheiro na jogada. Segundo consta, era segredo de polichinelo que o astro de "Ben-Hur" (meu professor de português insistia para que a gente não repetisse muito um nome ou palavra) sofria do mal de Alzheimer e estava mais para lá do que para cá.

Fato é que entrei no sítio, como gosto de chamar essas coisas. É como se eu fosse para o interior, para o campo, passar bem. Fui xeretar. Sítio grande, compridão na vertical. Dá as listas dos 50 mais cotados para "subirem" desde 1998, quando iniciaram sua história informática. Confiram. Eu dei-me á pachorra, pois aprecio pachorra. Quem pachorra, vivo está. Sempre um bom sinal.

Dou apenas alguns dos nomes que constam da lista deste ano da graça (risos de humor negro) de 2008. Logo depois de Heston, com o nome antecedido pela palavrinha dead, vem o excelente diretor e ator de cinema Sydney Pollack, de 74 aninhos de idade só. Eles devem saber de alguma coisa que nós outros não sabemos. Em 4º lugar, lá está o nosso, e dos britânicos também, Ronnie Biggs, com 79 anos, mas, conforme é do conhecimento geral e arquibancada, bem doentinho. Em 5º lugar, deu Brasil de novo: Oscar Niemeyer, com 101 anos a completar neste ano, em dezembro. Pegou 216 posts. Heston tinha 262, Biggs 536.

Campeão da postagem é o ditador por profissão, segundo o sítio, Fidel Castro, 82 anos, 813 posts, ou mau olhados, dependendo do ponto de vista.

Outros da lista: Claude Levi-Strauss, centenário este ano. Richard Widmark, que embarcou (olhaí outro eufemismo) na mesma semana de Heston, estava lá embaixo em 28º lugar, com apenas 48 posts. Kirk Douglas, de 92 anos, é supostamente imortal, segundo um dos que tacaram lá um post dos 88 que o ator pegou. Presentes ainda: Zsa Zsa Gabor, Dino de Laurentis, Fats Domino, o presidente do Afeganistão Hamed Karzai, o beletrista Alexander Solzhenitsyn e a atriz Elizabeth Taylor, esta, aliás, há muito desaparecida dos noticiários, o que já é, convenhamos, um plá.

Para encerrar, e digo isso no bom sentido, lembro que Niemeyer está presente na lista há alguns anos. Podem conferir. Nisso que dá apagar, também no bom sentido, muita velinha.

Sic transit gloria mundi. Resquiescat in pace. A Net, como Ringo e Django, não perdoa.

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