Espiões da Junta Militar vigiam distribuição de ajuda humanitária em Mianmar

Juan Campos Kala Ywa (Mianmar), 23 mai (EFE).- Os espiões se transformaram no principal instrumento da Junta Militar de Mianmar (antiga Birmânia) para controlar a distribuição da ajuda humanitária internacional para as vítimas da destruição causada pelo ciclone Nargis.

EFE |

Junto a cada uma das pequenas aldeias situadas à beira da única estrada que corta o delta do rio Irrawaddy, a região mais afetada pela catástrofe, os delatores do regime birmanês se encarregam de que ninguém, sobretudo nenhum estrangeiro, veja a distribuição do material de emergência.

Como se não fosse suficiente, há vários agentes à paisana que fingem estar descansando e jogando cartas embaixo de árvores perto dos vários postos de controle na entrada de cada povoado e aldeia, por mais remotos que sejam.

No entanto, os espiões não perdem nenhum detalhe acerca de cada pessoa que passa pelo local, e deixam à vista seus aparelhos de comunicação, com os quais alertam os militares sobre qualquer comportamento suspeito.

Por todo lado, famílias afetadas pela catástrofe revolvem restos de lixo, mas não são elas que os preocupam.

Em certo momento, próximo à saída de Kala Ywa (80 quilômetros ao sudeste de Yangun), a presença de um estrangeiro circulando pelo local causa certo nervosismo a alguns agentes do regime.

Os homens não impedem a passagem do forasteiro, mas seus olhares ameaçadores são um claro sinal de que os estrangeiros não são bem-vindos. Os agentes não fazem nem ao menos questão de disfarçar antes de anotar os dados do motorista e a placa do veículo.

Nesse momento, o motorista já sabe que não deve voltar a aparecer por ali, e que pode inclusive ser detido ao voltar a Yangun.

"São piores do que a Polícia e os soldados, pois não se limitam a machucá-lo ou prendê-lo. Eles anotam suas características no livro deles, e a partir de então você passa a ser suspeito de tudo", explicou à Agência Efe Ko Thin, um estudante de inglês de 22 anos que presenciou a cena.

O jovem foi um dos milhares de detidos após as manifestações a favor da democracia, em setembro do ano passado, em Yangun. Segundo Ko, no momento da detenção, ele estava apenas observando na rua os protestos pacíficos dos monges budistas contra a Junta Militar.

O rapaz foi libertado após duas semanas, e seu próprio delator o advertiu que, da próxima vez, denunciaria sua família.

A maioria dos espiões pertence ao corpo militar, mas muitos são civis dispostos a vigiar seus vizinhos para ganhar uma renda extra.

No delta do Irrawaddy, o principal trabalho dos espiões é ocultar o destino final da ajuda humanitária, transferida por pessoal local de organizações como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) que, apesar de ser uma das poucas ONGs com permissão para operar em Mianmar, não pode levar ao local seus especialistas em gestão de emergências, pois em sua maioria são estrangeiros.

Várias agências internacionais denunciaram que os militares confiscam suas cargas e que o material de socorro não chega a quem mais precisa dele.

Assim, estima-se que a ajuda tenha chegado a apenas 500 mil dos mais de 2 milhões de afetados pelo ciclone, segundo dados da ONU.

A Junta Militar nega e mantém o veto de acesso ao delta do Irrawaddy a qualquer estrangeiro, inclusive a voluntários.

A presença de dezenas de motocicletas, autorizadas apenas a transportar carteiros, militares e agentes dos serviços de inteligência chama particularmente a atenção em uma região tão pobre do país.

"Há um mês, ninguém nunca tinha visto motos por aqui, pois a maioria não recebe correspondência ou vai buscá-la em Yangun", disse Ko.

Muitos jovens são seduzidos pela possibilidade de dirigir uma motocicleta para entrar nos serviços de inteligência, o qual os birmaneses temem ainda mais do que à Polícia e ao Exército.

Em Yangun, os espiões se centram em informar sobre qualquer conduta que possa gerar incidentes ou protestos durante a presença do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que conclui hoje uma visita de dois dias a Mianmar.

Os principais locais públicos da maior cidade do país estão repletos de "observadores curiosos" em todas as esquinas, e dezenas deles supervisionam cada movimento dos monges nos pagodes de Shwedagon e Sule, cenário das manifestações contra o Governo, em setembro.

"Mas (os agentes) não estão de uniforme, não serão vistos com Ban Ki-moon", comentou, com ironia, um funcionário do serviço de limpeza, antes de voltar a seu trabalho para não criar suspeitas.

EFE csm/wr/gs

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