Esperança e vida em meio ao caos

Do caos à esperança, das lágrimas a um sincero sorriso de agradecimento. Três mães que conseguiram parir suas filhas após o terremoto que arrasou o Haiti na última terça-feira as batizaram com o nome das militares que as salvaram. Uma delas nasceu na madrugada após o terremoto, no estacionamento das ambulâncias da enfermaria da base brasileira em Porto Príncipe. A responsável pelos partos foi a tenente Daniela Gil, que disse não haver melhor recompensa pelo seu trabalho do que segurar os bebês que salvou no colo.

Vicente Seda, enviado especial a Porto Príncipe |


Manoecheka Morency, mãe de Daniela, não estava em condições de conceder entrevistas. Com quadro de hipertensão, depois de sangrar muito durante o parto, ela ainda recebia cuidados especiais neste domingo, na enfermaria, enquanto Daniela, a tenente, segurava a vida que salvou nas mãos.

Vicente Seda
Manoecheka Morency, mãe de Daniela

Shade Cherley e sua filha Daniela

A gente estava com todos os pacientes na garagem, no chão, e ela entrou em trabalho de parto, era inevitável. Não podíamos entrar por causa do medo de outro terremoto e o parto foi feito. Sou obstetra, tenho bastante experiência, nem sei dizer quantos partos já fiz, só faço isso da vida. Eu sabia que qualquer complicação não teríamos nada a mais a oferecer. Mas fora daqui ela estaria pior, porque os hospitais não a aceitariam, estavam superlotados. Ela sangrou muito. Para os nossos soldados foi muito importante. A gente teve perdas e olhar as crianças nascendo elevou a moral de todo mundo. A cena que não sai da cabeça foi o nascimento dela, às 5 horas da manhã. Não chorei porque estou meio congelada. Muita tragédia, muita cenas chocantes, e de repente a vida. Isso foi marcante, contou a tenente.

Vicente Seda
tenente Daniela Gil

Tenente Daniela Gil

Daniela é o nome também de outra menina, que nasceu na sexta-feira, filha de Shade, cuja casa ruiu, matando um dos seus primos. Disse: muito obrigado, o que você fez por mim e minha filha, Deus retribuirá, contou sorridente a mãe enquanto brincava com a criança.

Na outra maca, Veniese Antoine, mãe de Lulu, também agradecia à sargento Lucimar, que a salvou nas ruas, onde estava com a perna quebrada após ser atingida por um bloco de concreto. A criança nasceu na madrugada de quarta-feira. Daniela Gil também fez o parto e escolheu o nome. Eu só falei muito obrigada, pois não tenho dinheiro para ir a um bom hospital. Não sei como agradecer, contou Vaniese.

A resgatamos no dia 12, foi a primeira vítima a ser recolhida. Estava com a perna quebrada, avaliamos, tratamos o ferimento e mais tarde foi feito o parto. Ela ficou no meio da rua, completou sorridente a militar que salvou Lulu, Lucimar.

Vicente Seda
Veniese Antoine, mãe de Lulu

Sargento Lucimar, Lulu e Veniese Antoine

Para ajudar a reportagem do iG com a tradução, mais um exemplo de que solidariedade não tem idade. Alex Johnny, de 14 anos, ainda com cara de menino, compareceu à base brasileira logo após a tragédia, se prontificando a ajudar. E de graça. Em troca do seu trabalho, essencial para permitir uma comunicação adequada dos médicos com os pacientes, recebe comida e hospedagem.

Vim porque sei falar português, estudo e não tem muita gente que sabe essa língua aqui. Vim por conta própria, quero ajudar. Só ganho comida, mas vale a pena. Uma prova viva de que, em meio à tristeza, violência, fome, saques, há bons corações.

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