Especialistas não acreditam em comércio sino-brasileiro sem dólar

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que substituir o dólar americano por reais e yuans na relação comercial do Brasil com a China é uma proposta de muita importância política mas pouca viabilidade prática. A ideia de conduzir as trocas em moeda própria foi levantada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a reunião do G20 em Londres em abril e é um dos pontos que serão abordados na visita à China que começa nesta segunda-feira.

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Na ocasião, o presidente Lula justificou a proposta afirmando que é preciso "criar novos mecanismos" para "não ficarmos tão dependentes do dólar".

O uso de moeda própria funciona num esquema chamado de "swap" ("permuta", em português) e significa que os bancos centrais dos dois lados enviam um ao outro o dinheiro de seu país.

A China já possui acordos de "swap" com mais de seis economias - inclusive Argentina e Hong Kong - e disponibilizou cerca de US$ 95 bilhões para este fim nos últimos seis meses, de acordo com a imprensa estatal.

Improvável
Apesar do interesse brasileiro e chinês em praticar comércio num sistema de "swap", especialistas acreditam que é improvável que as moedas próprias cheguem a substituir o dólar.

"É irrealista substituir o dólar por reais ou yuans", disse à BBC Brasil o especialista em Brasil e vice-presidente do departamento de América Latina da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS), Jiang Shixue.

"A proposta é difícil de ser posta em prática por questões monetárias e macroeconômicas", afirma Renato Amorim, sócio da consultoria Carnegie Hill e ex-chefe do setor comercial da embaixada brasileira em Pequim.

Para Amorim, o uso de moedas próprias é mais "um sinal" de que ambos os países ambicionam desempenhar um papel mais "forte e assertivo" internacionalmente do que propriamente um projeto "factível".

Zhou Zhiwei, secretário-geral do Centro de Estudos Brasileiros do Instituto da América Latina (ILAS) em Pequim, concorda com Amorim. "Eu acho que a proposta tem mais significado político", avalia.

Segundo Zhou, na prática é difícil "determinar os preços dos produtos no comércio bilateral" e estabelecer uma taxa de câmbio direta entre real e yuan, explicou.

Além disso, "por qual razão exportadores brasileiros iriam querer ter grandes saldos em yuan, uma vez que não há maneira segura de investir eles?" questionou Arthur Kroeber, diretor da Dragonomics, consultoria de economia baseada na capital chinesa.

O comércio em yuans e reais independente do dólar "é mais político do que substantivo", resumiu Kroeber.

'Mais fácil'
De acordo com o presidente Lula, o uso de moedas próprias, além de reduzir a dependência do dólar, também tornaria o comércio "muito mais fácil", pois assim "o pequeno empresário não tem que ficar atrás de dólar para comprar, ou seja, ele faz o negócio na moeda do país".

Além disso, comercializar em reais e yuans significa "menos exposição" no caso de um dólar volátil, afirmou à BBC Brasil Qu Hongbin, economista chefe para China do banco HSBC.

Importar e exportar sem a moeda norte-americana também "retiraria a pressão do câmbio" no Brasil, disse Rodrigo Maciel, Secretário Executivo do Conselho Empresarial Brasil-China.

Atualmente a maior parceira comercial do país, a China somou US$ 3,2 bilhões em trocas de produtos e serviços somente no mês de abril, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio.

Na prática, no entanto, exportadores estranham a ideia de negociar em moeda própria, especialmente commodities, que correspondem a quase 77% das vendas à China.

"No mundo inteiro a moeda que pauta commodities é o dólar. Como é que vai mudar? Teria que ser uma transformação global e eu acho isso difícil de acontecer", diz Sérgio Mendes, diretor geral da ANEC, Associação Nacional dos Exportadores de Cereais.

Zhou Zhiwei acredita que do lado brasileiro também haverá resistência à proposta porque o comércio em moedas locais é visto como algo "perigoso", segundo ele.

"Isso pode estimular a exportação chinesa para o Brasil", disse, aumentando o déficit na balança comercial, que no ano passado fechou US$ 3,6 bilhões no negativo.

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