Especial BBC: Os ventos da mudança

Gasodá Suruí e Tori Tupari, chamemo-los por seus nomes indígenas, se conheceram no Orkut, flertaram pelo MSN Messenger e agora, casados, observam achando graça o aparato do jornalista que montou uma câmera de vídeo e improvisou um auxiliar técnico para segurar o microfone boom, medidas essenciais para garantir a boa captação de imagem e som e, assim, a qualidade técnica da matéria. O jornalista, o leitor já desconfia, é esse que vos escreve.

BBC Brasil |

E o casal, quando a entrevista se inicia, no fim das contas nem é tão tímido assim. Pelo contrário, estão acostumados a serem o centro das atenções, na qualidade de único casal internético indígena por estas bandas.

A história deles, que o leitor conhecerá em breve, quando a BBC Brasil colocar no ar as matérias em texto e vídeo, é uma dessas narrativas pela qual vale a pena cruzar o Atlântico. As coisas estão mudando por estes lados. E ao mesmo tempo, permanecem como eram antes.

No cair da tarde, com todos os moradores da aldeia de volta às suas casas, o lugar imerge em uma pacata vida comunitária. As mulheres assam a carne e pilam a farinha de mandioca para a paçoca. A mãe do líder Almir Suruí conta histórias de caçadas e pajelança para o grupo, em dialeto Páiter. As casas de madeira têm luz elétrica, mas basta caminhar 30 metros para longe delas e já se pode contemplar o céu limpo, cheio de estrelas.

Só nos 45 minutos de estrada de barro que separam a terra indígena da estrada de asfalto é que me dou conta da distância - física, é claro, mas também em vários sentidos figurados - de casa. Ao longo de toda esta viagem, a distância às vezes diminuiu, como quando Gasodá e Tori contaram sua história que, em sua essência, tirando as cores do cenário, é bastante parecida com a de qualquer casal de jovens que se conheceu na internet em qualquer lugar do mundo.

Mas Almir e Neide não esquecem de que seu mundo e o meu são mundos diferentes. Fazem questão de me escoltar até a cidade de Cacoal porque sabem que jornalistas estrangeiros aqui podem ser mal vistos por dar voz aos indígenas, que tentam manter suas raízes e preservar o meio ambiente em que vivem. Para muitos, isso é impedir o progresso.

Para além da reserva indígena, agora sou capaz de perceber a transformação que se operou por aqui. Deixo Cacoal antes da primeira luz do dia e, quando os raios de sol iluminam a estrada, o que vejo é uma paisagem que associo mais ao Pantanal que à Amazônia. Pastos e áreas de agricultura mecanizada formam uma sequência nos 500 km até Porto Velho.

No rádio do carro, os programas tocam sertanejo entre comerciais de frigoríficos e indústrias de máquinas e químicos. A música é bonita. É uma cultura de cowboys, de rodeios, de criação de gado. Em outro canal, em um programa só de músicas do Nordeste, o apresentador "acorda" os ouvintes riscando a lâmina de uma peixeira.

É um reflexo, creio, da composição social desta parte da Amazônia e de outras. O problema é que nem todas estas partes da mesma sociedade convivem em paz aqui. E eu não vou fazer chover no molhado, listando para o leitor a tensão por conta dos conflitos fundiários, ambientais e sociais da região.

Esta reportagem, que se originou a partir de uma história isolada dos Suruí e sua parceira com a internet, acabou servindo de metáfora das pressões por transformações sobre a Amazônia brasileira. Mas que reportagem não o faria? Não são poucas as divergências sobre o que deve ser esta transformação, em que ritmo ela deve ocorrer e qual deve ser o resultado dela.

Os ventos da mudança sopram forte por aqui. E ninguém sabe para onde eles vão levar em 30, 40, 50 anos.

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