Quase duas mil famílias da Espanha estão preparando uma ação judicial coletiva com o objetivo de receber de volta dinheiro confiscado durante a Guerra Civil Espanhola, há 71 anos. Em agosto de 1938, o general Francisco Franco, que passaria a ser ditador do país a partir de 1939, suspendeu a validade das notas emitidas pelo governo republicano, derrubado por ele em um golpe militar.

A população foi conclamada a "trocar" o dinheiro velho pelo dinheiro novo, no Ministério da Fazenda, mas os suspeitos de comunismo e de serem favoráveis ao governo republicano tiveram seu dinheiro confiscado pela polícia. Em troca, eles ficaram com recibos e a esperança de um dia reaver o dinheiro.

Segundo os cálculos do recém-criado Agrupamento dos Prejudicados pelo Confisco Franquista, os valores atualizados somados chegariam a 14 milhões de euros, cerca de R$ 42 milhões.

O caso foi apelidado de "as famílias do dinheiro vermelho". Era assim que os militares liderados por Franco chamavam os espanhóis acusados de ser leais à república e, portanto, inimigos do general, comunistas e vermelhos.

As 1.892 famílias que vão entrar com a ação judicial têm histórias parecidas. Perseguidas pelo regime, elas tiveram que entregar todo o dinheiro que possuíam sob ameaça de morte.

Os recibos foram passados de geração a geração e ganharam importância com a entrada em vigor da Lei da Memória Histórica, em 2007.

A lei prevê o reconhecimento e compensações aos prejudicados durante a ditadura de Franco (1939-1975). Entretanto, ela não prevê o ressarcimento das "famílias do dinheiro vermelho".

"Este é um tema importante principalmente para os idosos. Atinge não só o lado material, mas também um ressarcimento moral para eles", explicou à BBC Brasil a advogada Gisela Dotes, que representará as famílias no processo.

"Tem gente que ficou sem nada e guardou esse recibo como um tesouro familiar."
O Agrupamento dos Prejudicados pelo Confisco Franquista só conseguiu contabilizar o prejuízo de quem guardou os recibos.

"Estão aparecendo casos de espanhóis que emigraram para a América Latina e outros que perderam os recibos. Nessa situação é difícil atuar", afirmou a advogada.

Em algumas famílias os recibos fazem parte de lembranças dramáticas. "Ficamos arruinados. Só sobraram umas moedas de prata que meu pai escondeu numa meia", recordou à BBC Brasil a aposentada Montserrat Capdevilla, de 78 anos.

"Fiquei anos indo aos guichês do Banco Central para receber. A princípio diziam que ainda não estava na hora. Depois que chegou a democracia, o caso estava prescrito".

Segundo o Agrupamento dos Prejudicados pelo Confisco, o decreto de Franco, de 1938, determinava que os espanhóis trocassem o "dinheiro vermelho colocado em circulação", recebendo recibos.

Em alguns casos, como na Ilha de Palma de Mallorca, o dinheiro era trocado por cruzes de madeira com as inscrições em latim Pro aris et focis
("pelos altares e lares").

Aqueles que sofreram o confisco só poderiam conseguir a devolução do dinheiro se apresentassem um boletim de bom comportamento assinado por um padre, um guarda, pelo prefeito e pelo partido de Franco.

Temendo represálias, "ninguém nem tentava pedir o dinheiro. O estado de ânimo coletivo era o medo" disse à BBC Brasil Fernando Arcas, catedrático de História da Universidade de Málaga, que estuda 4 mil causas de perseguidos pelo franquismo.

As "famílias do dinheiro vermelho" ainda não conseguiram uma resposta do governo, mas já tem apoio de três partidos políticos que prometeram levar ao parlamento uma proposta de criação de um fundo para a devolução do dinheiro.

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