A falta de liquidez no mercado imobiliário espanhol está fazendo com que muitos proprietários tenham que apelar para o troca-troca de imóveis como alternativa à venda direta. Segundo dados do governo, 30,6% dos imóveis negociados na Espanha no primeiro semestre de 2008 foram permutas, mais do que o triplo do registrado em todo o ano passado.

O crescimento do troca-troca, em detrimento da venda comum, pode ser visto nos sites de imóveis. O principal site espanhol gratuito de compra e venda tinha 6.757 ofertas de imóveis para troca até a manhã desta terça-feira. Em 2007, foram 1.934.

De Barcelona para a Costa do Marfim
Os interessados nas permutas são principalmente trabalhadores pressionados pelas dívidas bancárias - pessoas que ficaram desempregadas, que não têm como pagar as hipotecas dos imóveis ou que querem ganhar liquidez ou tentar a vida em outros lugares.

No site, um imigrante africano oferece uma casa na periferia de Barcelona valorizada em 210 mil euros por três imóveis em Abidjan, na Costa do Marfim. Um espanhol que também quer emigrar, anuncia uma casa grande em Alicante com vistas para o mar Mediterrâneo por um apartamento em Estocolmo.

"As pessoas ligam pensando que se trata do negócio da China. Trocar um casarão por um apartamento pequeno e mais barato. Mas é preciso saber a diferença entre as duas taxações que são pagas. Não é apenas uma troca, mas uma resposta à necessidade de dinheiro", disse a dentista Patricia Arganzuela, que há dois meses tenta trocar um apartamento de 120 metros quadrados na periferia de Madri por um menor no centro da capital.

O problema é que o dela está valorizado em 450 mil euros e quem aceitar a troca, mesmo dando outro imóvel como parte do pagamento, fica com o restante da dívida com o banco.

"A permuta é uma opção para não cair nas mãos de especuladores, agiotas e acabar afogada pelas dívidas", completou Patrícia.

A Espanha vive uma crise econômica, que está atingindo especialmente os setores de emprego e imobiliário. O país já tem a maior taxa de desemprego da União Européia (11,3% da população ativa) e as vendas de imóveis caíram em 37,6% em relação a 2007.

São os piores índices dos últimos 15 anos, segundo o Ministério da Habitação, e a perspectiva não é das melhores. O mercado tem em torno de 2 milhões de imóveis à venda, mas a falta dinheiro deverá durar até 2010 pelo menos.

"Até 2004 tudo o que se construía na Espanha se vendia. Quer dizer: o estoque de moradias novas era zero. Vai ser preciso ao menos três anos e meio para absorver o atual estoque. Isso sem que se construa nada mais até então", disse à BBC Brasil, o diretor de análise e investigação de mercados da agência Aguirre Newman, Javier García-Mateo.

Imigrantes
O empresário madrilenho Juan Alaya foi um dos que se aproveitou do boom imobiliário espanhol, com facilidades de financiamento de até 100%. Em 2004, ele comprou dois apartamentos na planta.

Mas o que era uma oportunidade, agora se transformou em um problema. Hoje ele tem uma dívida de mais de 500 mil euros, por conta dos financiamentos.

Sem conseguir empréstimos nem renovar o crédito, ele tenta permutas, aceitando perder até 40% do valor dos imóveis.

"Não tenho saída. Estou oferecendo trocas por casas menores como parte do pagamento porque não há como sair dessa bola de neve."
Entre as milhares de ofertas, há muitas de imigrantes que querem voltar a seus países.

No caso dos brasileiros, o que está acontecendo é o contrário. Os principais anúncios são propostas de interessados em sair do Brasil que procuram moradia na Espanha.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.