Escola islâmica emite 'fatwas online' na Índia

Clérigos islâmicos usam a internet para se conectar com fiéis e emitir interpretações da Sharia

EFE |

Os clérigos da escola islâmica de Deoband, na Índia, encontraram na internet uma grande ferramenta para propagar suas interpretações da Sharia (lei islâmica): a emissão de fatwas online, pelas quais os fiéis perguntam até mesmo dúvidas sexuais.

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Muçulmanos usam a internet em escola islâmica (madrassa)
Desde seu lançamento em 2007, a ferramenta no site do madraçal Darul Uloom , de Deoband, a escola mais influente de interpretação do Islã sunita, acumulou mais de 11.370 consultas, emitindo fatwas (decretos islâmicos) em inglês e urdu. Mas uma delas, que limita o direito ao trabalho da mulher, recentemente provocou feridas na Índia.

"É ilegal que uma mulher muçulmana trabalhe para o governo ou para instituições privadas onde homens e mulheres trabalhem juntos e as mulheres têm de falar com os homens com franqueza e sem véu", respondeu o mufti (acadêmico islâmico) a uma consulta. A interpretação levantou protestos de ativistas indianas.

Consultado, o vice-chanceler do madraçal, Moulana Abdul Khaliq, negou que as mulheres não possam trabalhar. "Se uma mulher trabalha por necessidade, mantendo os princípios do Islã, e se usa véu e não se comunica com outros homens (não parentes próximos), tudo bem que ela trabalhe", disse o clérigo.

Khaliq ressaltou que, mais que fatwas, as respostas online do mufti são "soluções a problemas pessoais de acordo com o Corão" e a Sharia.

"Se fecham uma porta, pelo menos deveriam abrir outra! Só emitir fatwa após fatwa não representa solução alguma", comentou a presidente do Comitê do Direito de Família das Mulheres Muçulmanas da Índia (AIMWPLB), Shaista Ambar.

Segundo ela, as restrições devem ser relaxadas dependendo dos casos. "Se há uma mulher pobre órfã, viúva ou divorciada, claro que ela terá de sair para ganhar a vida".

A escola de Deoband, centro da ortodoxia sunita do Sul da Ásia - fundada no século 19 em Uttar (norte indiano) -, já deu o que falar no passado por aprovar casamentos celebrados pela internet e divórcios através de SMS.

A novidade de fatwas online responde a dúvidas de todo tipo, desde o direito do homem à poligamia e como determinar a fidelidade de uma mulher, até consultas sobre alimentação, sexo, vestuário e estética.

"Uma mulher não pode depilar com cera do umbigo aos joelhos, mesmo que outra mulher o faça", diz uma das respostas.

"É ilegal e pecado que uma mulher corte o cabelo. Mas pode tingi-lo com outras cores além do preto", expressa o mufti em outra opinião. Nesta, ele desaconselha "imitar o estilo das mulheres ocidentais", mesmo que para agradar ao marido. "Pode se pentear diariamente se for necessário, mas não é desejável dar tanta atenção a isso", sugeriu em outra.

A um pedido de permissão para tomar uma popular bebida energética, o mufti admitiu desconhecer seus ingredientes, recomendou uma pesquisa e disse que não há nada mau em beber algo "se não contiver substâncias impuras e não intoxicar".

Uma mulher perguntou se podia usar joias de ouro nos pés, algo comum entre as hindus, e recebeu como resposta que sim, desde que "não se pareçam com os anéis usados pelas mulheres não-muçulmanas".

A um estudante sunita de engenharia que perguntou sobre sua amizade com um companheiro xiita, o mufti lhe lembrou que "um muçulmano não deve ter nem relações próximos nem comer ou beber com eles" e que "não deve cumprimentá-lo, mas pode responder à saudação".

Muitas dúvidas disponíveis no site são relativas às práticas sexuais permitidas para os fiéis sunitas.

O 'mufti online' lembrou que a masturbação está proibida. "Mas caso ocorra, não deixe de fazer 'tauba' (arrependimento) e 'istighfar' (pedir perdão a Alá) genuínos".

"Não é permitido (ao marido) beber o leite de uma mulher após o parto. É proibido e pecado. Não há forma de purificá-lo, apenas faça 'tauba' e 'istighfar' extensamente", propôs.

Em respostas como estas e outras, a instituição mostra sua face menos ortodoxa e prática, como quando considera "desnecessário" divorciar-se de uma mulher após descobrir que ela não casou virgem, desde que ela se arrependa.

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