Escócia enfrenta críticas dos EUA por libertação de terrorista

Pedro Alonso. Londres, 24 ago (EFE).- O Governo da Escócia defendeu hoje sua polêmica decisão de libertar, por razões humanitárias, o líbio Abdelbaset Ali al-Megrahi, condenado pelo atentado de Lockerbie, que deixou 270 mortos em 1988, apesar do crescente descontentamento dos Estados Unidos.

EFE |

A criticada libertação de Megrahi provocou tanta controvérsia que o Parlamento de Edimburgo interrompeu hoje o recesso de verão (hemisfério norte) e realizou uma sessão de emergência para debater o caso.

Em comparecimento na Câmara, o ministro da Justiça escocês, Kenny MacAskill, defendeu a decisão de libertar o terrorista, na última quinta-feira, o que colocou o político no centro do furacão na Escócia e aborreceu bastante o Governo dos Estados Unidos, já que 189 das vítimas do atentado eram americanas.

MacAskill afirmou que a libertação de Megrahi, de 57 anos e doente de um câncer terminal, foi baseada em relatórios médicos e nos ideais do sistema legal escocês, e negou que por trás da decisão existam pressões políticas, diplomáticas ou econômicas.

"Na Escócia somos um povo que se orgulha de sua humanidade. Isso é visto como uma das características que definem a Escócia e o povo escocês", afirmou o ministro da Justiça.

"A perpetração de uma atrocidade não pode nem deveria ser a base para perder de vista quem somos, os valores aos quais nos atemos e a fé e as crenças que temos para viver", acrescentou o político.

Pressionado pela oposição, MacAskill se referiu à recepção que o terrorista recebeu no dia 20 em Trípoli, onde milhares de pessoas o esperavam e o acolheram como um herói enquanto agitavam bandeiras líbias e escocesas.

"É muito lamentável que o senhor Megrahi tenha sido recebido de uma maneira tão inadequada", ressaltou o ministro.

"O Governo líbio tinha dado garantias de que o retorno (do terrorista) seria abordado de uma forma discreta e sensível", defendeu MacAskill.

A volta de Megragi nos braços da multidão e a audiência que teve com o próprio presidente líbio, coronel Muammar Kadafi, irritaram ainda mais os parentes das vítimas, que viram esses gestos como um doloroso escárnio.

Os três partidos da oposição na Escócia -trabalhista, conservador e liberal-democrata- criticaram a decisão, e acusaram o Governo do nacionalista Alex Salmond de causar um enorme dano à imagem escocesa.

O líder dos liberal-democratas escoceses, Tavish Scott, disse que a reputação internacional da região está "caindo, e não crescendo".

O chefe dos trabalhistas escoceses, Iain Gray, criticou o Executivo por "tomar uma decisão equivocada da maneira equivocada e com consequências equivocadas".

A libertação do terrorista, após cumprir apenas oito do mínimo de 27 anos da sentença imposta em 2001 pelo atentado contra um avião da Pan Am que sobrevoava a localidade escocesa de Lockerbie, foi fortemente criticada pelos EUA.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a secretária de Estado, Hillary Clinton, e vários senadores americanos influentes, entre eles Edward Kennedy, criticaram a decisão.

O diretor do FBI (Polícia federal americana), Robert Müller, também protestou este fim de semana contra a libertação do terrorista.

Ele atuou como promotor durante a investigação do atentado, e qualificou a decisão de "evasão da justiça" e de "consolo para os terroristas no mundo todo".

A polêmica também foi criada nos Estados Unidos com o lançamento de um portal na internet que pede aos americanos para boicotar tanto a Escócia quanto o Reino Unido em seu conjunto pela libertação de Megrahi, não visitando essas ilhas nem comprando seus produtos.

Enquanto isso, o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, que passa férias de verão na Escócia, foi hoje criticado pela oposição por seu contínuo silêncio sobre o assunto, apesar das críticas provenientes dos dois lados do Atlântico.

O líder liberal-democrata, Nick Clegg, reconheceu que Brown não é "pessoalmente responsável" pela libertação do terrorista, mas o caso situa o Reino Unido "no centro de uma tempestade internacional" e o silêncio do premiê é "absurdo e prejudicial". EFE pa/db

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