Escassez de moedas obriga argentinos a recorrer à criatividade

A falta de moedas que atinge a Argentina vem obrigando a população a recorrer à criatividade. Gestos que antes eram simples como receber o troco do cafezinho, comprar jornais e até andar de ônibus se tornaram desafios cotidianos, devido à falta de moedas.

BBC Brasil |

Segundo o governo, a escassez ocorre porque empresas de ônibus e transporte de valores estão tirado moedas do mercado para vendê-las a preços mais altos do que seu valor de face. Fontes ligadas à área econômica do governo ouvidas pela BBC Brasil afirmam que moedas são vendidas no mercado negro com um ágio que pode chegar a até 15% do valor original.

"Isso virou um grande negócio ilegal promovido pelas empresas que, diariamente, acumulam muitas moedas e as vendem para as grandes redes, como supermercados, por exemplo, que precisam de troco", afirmou um assessor que preferiu não se identificar.

Para tentar solucionar o problema, o Banco Central argentino determinou emissões recordes de moedas nos últimos dois anos. Em 2007, foram emitidas 463 milhões de novas unidades de diversos valores e, em 2008, outras 523 milhões de moedas foram lançadas no mercado.

A escassez, no entanto, continuou, o que fez com que o governo lançasse operações contra empresas que comercializam estas moedas.

No final do ano passado, a Justiça Federal determinou uma batida nos depósitos da empresa de transportes de valores Maco, que tem sucursais em Buenos Aires e outros pontos do país e é responsável pelo transporte de 80% das moedas que circulam diariamente na Argentina.

Na operação, foram encontrados o equivalente a 4,5 milhões de pesos na forma de 13 milhões de moedas - seis vezes mais do que a Casa da Moeda pode produzir num só dia.

Segundo o governo, o negócio da venda de moedas envolveria ainda empresas de ônibus, que diariamente vendem 14 milhões de passagens - todas em moedas (não é possível pagar as passagens com cédulas).

O acesso a essa quantidade de moedas, segundo a imprensa local, teria transformado as empresas de ônibus em fornecedoras do produto. O preço: 100 pesos, em dinheiro de papel, por cerca de 85 pesos em moedas.

Em uma tentativa de reverter este quadro, a presidente Cristina Kirchner anunciou, na última quarta-feira, a criação de um tíquete eletrônico que passará a ser usado para pagamento de passagens de ônibus, trens e metrô. A medida entra em vigor em 90 dias.

"Foi constatado, há pouco tempo, o caso de uma empresa que tinha moedas, com as quais evidentemente especulava. E esse tipo de negócio acabava sendo pago pelos mais vulneráveis", disse a presidente.

No entanto, o tíquete não deverá resolver o problema do taxista Horácio Caruso, de 50 anos, já que a novidade não inclui os táxis que lotam a cidade de Buenos Aires.

"O jeito é arredondar o preço. É o que faço e vou ter que continuar fazendo", diz.

A situação é explícita nos bairros da capital, Buenos Aires, onde os argentinos apelam para a criatividade para conseguir moedas ou para explicar porque elas estão em falta.

Bares, jornaleiros e taxistas costumam pendurar cartazes improvisados com dizeres como "não temos moedas" ou ainda "diante da falta de moedas, só podemos vender cigarros com dinheiro exato ou troco em balas".

Algumas lojas tentam conseguir moedas com cartazes que dizem: "Quebre seu porquinho (chanchito) e trocamos suas moedas".

Diante deste cenário, Josefina Pondé, de 34 anos, mãe de cinco filhos, conta que, quando era criança, poupava moedas em um porquinho, mas agora é diferente.

"Poupar só com nota de dinheiro", afirma.

Ela ainda conta que mantém em casa uma caixa para guardar moedas, já que elas são "essenciais na hora de pegar o ônibus".

A escassez fez também com que alguns bancos limitassem a troca de cédulas por moedas, o que dificulta a vida dos argentinos.

A empregada doméstica e vendedora de produtos de beleza em domicílio, Mercedes Aranda, de 55 anos, conta que precisa "dar presentes" aos bancários para conseguir moedas para pagar as quatro viagens de ônibus que faz diariamente de casa ao trabalho.

"No banco, só posso trocar dois pesos por moedas. Isso não é suficiente pra mim. Então, dou presentinhos aos bancários, como cremes e docinhos. Assim, consigo as moedas que preciso", afirma.

Ela conta ainda que é comum que os passageiros de ônibus ajudem uns aos outros fornecendo moedas para as passagens. O preço da tarifa varia entre 1,10 pesos e 1,50 pesos.

O porteiro Sergio Santillan, de 25 anos, que trabalha em um prédio no bairro da Recoleta e mora a cerca de 40 quilômetros dali, em Ezeiza, também precisa de cerca de cinco pesos - em moedas - todos os dias para pagar a passagem de ônibus.

"Pelo menos uma vez por semana enfrento uma fila de uns trinta minutos na estação de trens de Constituição (próximo ao centro da cidade) para trocar 20 pesos por moedas. Não tem outro jeito mesmo".

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