Escassez de crédito para mercado exportador é de US$ 25 bi, diz OMC

A crise financeira internacional provocou uma retração no financiamento para as exportações e uma escassez de crédito da ordem de US$ 25 bilhões, disse nesta quarta-feira o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. O mercado estima atualmente um déficit de liquidez no financiamento do comércio internacional de cerca de US$ 25 bilhões, afirmou Lamy, depois de uma reunião em Genebra com representantes de 19 instituições financeiras internacionais e regionais, bancos privados e agências de crédito.

BBC Brasil |

"O mercado de crédito para as exportações se deteriorou severamente nos últimos seis meses, especialmente a partir de setembro", disse o diretor da OMC.

Segundo Lamy, a visão expressada pelos participantes da reunião é de que "a situação deve se deteriorar ainda mais nos próximos meses", e as economias emergentes são as mais afetadas.

Impacto
Ainda não há dados que mostrem o impacto da retração do financiamento sobre as exportações.

"Não se sabe como vai impactar", disse à BBC Brasil, por telefone, o vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Armando Mariante Carvalho, que participou da reunião.

No entanto, o temor é de que um impacto negativo nas exportações agrave ainda mais os efeitos da crise na economia mundial.

No final de semana, em uma coletiva de imprensa após a reunião do G20 em São Paulo, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, afirmou que em 2009 poderá haver um declínio do comércio mundial pela primeira vez desde 1982.

Curto prazo
De acordo com o vice-presidente BNDES, o problema é principalmente no financiamento de curto prazo.

"O comércio global, que movimenta US$ 18 trilhões por ano, é fortemente dependente de financiamento de curto prazo", disse. "Esse tipo de financiamento sofreu uma queda muito drástica, e há temor de que possa cair ainda mais."
Um dos fatores que motivou a convocação da reunião desta quarta-feira, segundo a OMC, foi um comunicado enviado pelo Brasil ao Grupo de Trabalho sobre Comércio, Dívida e Finanças no mês passado.

No documento, o Brasil afirmava que "os exportadores dos países em desenvolvimento que buscam financiamento se vêem na estranha situação de estar entre os agentes econômicos mais confiáveis mas, mesmo assim, não conseguirem obter crédito".

Conforme o comunicado, isso ocorre "em um cenário com percepções de risco elevadas, que levam a exigências mais rigorosas por parte dos bancos, ou simplesmente porque os fundos não estão mais disponíveis".

Brasil
Segundo o vice-presidente do BNDES, uma maior intervenção dos organismos estatais no financiamento ao comércio internacional poderia atenuar a questão do risco.

A avaliação de especialistas é de que há um problema generalizado de falta de confiança no mercado.

Em entrevista à BBC Brasil, o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Alessandro Teixeira, disse que grande parte da retração do crédito para financiamento de exportações se deve a "uma crise de expectativa".

Tanto Teixeira quanto Mariante afirmaram que, apesar de o problema ser global, o Brasil enfrenta a situação ainda em uma posição de relativa vantagem em relação a outros países.

"Não quer dizer que haja uma retração generalizada e seja um problema para a economia brasileira", afirmou o presidente da Apex-Brasil.

"No Brasil estamos fazendo o dever de casa", disse o vice-presidente do BNDES, ao afirmar que o banco já liberou uma nova linha de financiamento a exportações e, se necessário, outras serão abertas.

Encontro do G20
O diretor-geral da OMC disse que a ação conjunta de instituições financeiras internacionais e agências de crédito a exportações, com o apoio dos governos, pode ser uma medida para enfrentar o problema. Entre essas medidas, estaria o compartilhamento de riscos de financiamento.

"Em uma época de desaceleração do comércio e do crescimento econômico, investir recursos para manter o financiamento ao comércio internacional fluindo é crucial", disse Lamy.

"Os países mais vulneráveis à escassez de financiamento para exportações são os emergentes, com os quais estamos contando para sustentar o comércio e o crescimento econômico à medida que as economias desenvolvidas desaceleram", afirmou.

"Essa é uma mensagem útil para o encontro de líderes mundiais em Washinton no dia 15", disse Lamy, referindo-se à reunião de chefes de Estado do G20 que vai discutir a crise e mudanças no sistema financeiro global.

Rodada Doha
Lamy também voltou a fazer um apelo pela conclusão da Rodada Doha de liberalização do comércio mundial que, segundo ele, seria uma maneria de combater "o caos financeiro".

"Os membros (da OMC) devem resistir aos apelos por medidas protecionistas", disse.

"Enquanto os países lutam para redesenhar as regras financeiras globais, eles poderiam enviar um sinal positivo ao regular melhor o comércio internacional por meio da conclusão da Rodada Doha", disse.

Segundo o vice-presidente do BNDES, na situação atual a conclusão de Doha "é mais que uma conveniência".

"É essencial para retomar a confiança", disse Mariante.

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