Escalafobeticidades

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose, hipopotomonstrosesquipedaliofobia, oftalmotorrinolaringologista. Essas são as grandes palavras.

BBC Brasil |

Vultologomaxidimensionais. Pobre de nós, crianças inocentes, de calças curtas, no recreio, querendo "pegar" os colegas com as, então, para nós, "maiores" palavras da língua portuguesa, que não passavam de raquíticas nanicas - pretensiosas e cabeçudas - como "anticonstitucionalissimamente", 29 letrinhas e apenas a quarta maior palavra de nosso idioma.

Achávamos, pois não sabíamos nada, que "inconstitucionalissimamente", com suas paupérrimas 27 letras, pegava o vice-campeonato. Nem desconfiávamos das quatro maiores - grandes, sensacionais - que aqui no início desta parlapatice enumerei.

Não tenho forças nem vista suficiente para digitá-las de novo. Limito-me a dar o significado das quatro palavrações em questão e seu significado. A primeira, aquela do "pneumo..." etc, define a pessoa acometida por uma doença pulmonar causada pela aspiração de cinzas vulcânicas, que é, aliás, o nome da segunda começando em "pneumo" e acabando em "niose".

Os preguiçosos e pobres de espírito dizem pneumoconiose, que é de uma sem graceza total, o equivalente a ir de terno de linho branco e sem gravata ao baile a rigor.

Nunca aspirei cinzas vulcânicas. Um domingo desses, talvez... Quem sabe? Meu enfisema, que eu já achei que fosse de origem feminina, só para dar encanto às minhas mazelas, talvez se beneficiasse de uma boa pneumoultramicroscopicossilicovulcaniose. Ih, pronto! Digitei de novo o vocábulo de 46 letras que ganhou seu primeiro registro no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa em 2001 e lá está, botando banca, na página 2242.

Segundo o Livro Guinness de Recordes da imaginação, eu sou a primeira pessoa a empregar o catatau vocabular em sua forma virtual. Perco apenas para um baiano, claro, que conseguiu encaixá-la num discurso que fez ainda agorinha na pequena cidade de Caixolina da Assunção, no sudeste do Estado, por ocasião das recentes eleições municipais.

Desconheço o contexto. O candidato também desconhecia. Como desconheciam palavra e contexto as 17 pessoas que compareceram de viva presença, triste aparência e baixa voz ao discurso candidatiferal. Desnecessário acrescentar que ele (não dou o nome por motivos legais) não foi eleito.

Desnecessário também frisar que a palavra "candidatiferal" carece de existência dicionarivisável (outra que inexiste. Mas, que fazer? baixou-me o caboclo cunhador e cunhando passei estas linhas, como cunhando pretendo passar os poucos anos de vida que me restam. Isso, no entanto, nada tem a ver com o assunto em questão. Eu nem mato a cobra nem mostro o pau. Sou de boa paz).

Em tempo, a tal palavra começando em "hipo", e por aí afora, ou adentro, a que pegou o terceiro lugar, um mero placé, tem 33 letras e é uma doença psicológica que se caracteriza pelo medo irracional, ou fobia, de pronunciar palavras grandes ou complicadas. Você aí, companheiro, tire o dedo do nariz e pare com essas hipopotomonstrosesquipedaliofobias. Superhiperpalavrórios não mordem, não fazem mal à saúde e, além do mais, não elegem ninguém, o que não deixa de ser uma boa notícia.

Mais: aquela que pegou um quarto lugar - vocês lembram - a "oftalmotorrinolaringologista" é quase que um lugar comum, um tipo tão vulgar como vereador, prefeito ou amolador de facas. Todos nós fomos, ou iremos, um dia, a um oftalmotorrinolaringologista, esse especialista em doenças dos olhos, ouvidos, nariz e garganta que já salvou tantas vidas artística (vide, ouça, cheiro e gargareje João Gilberto) ou placidamente leiga de cidadãos ditos comuns.

Ao busílis
Todo esse fuzuê verbal, digressivo e perdido na densa floresta de meu estilo ensimesmado, é porque li numa revista americana que o Dicionário Collins, de vida e natureza britânica, pretende, em sua próxima edição, dar uma enxugada firme no vocabulário inglês. Houveram por bem os lexicógrafos responsáveis pela prestigível (não existe a palavra) publicação expulsar do tomo secular palavras de raro uso e/ou arcaicas.

Que besteira. Dicionário sempre foi para acrescentar e deixar, criando mofo ou não, palavras em desuso (jamais, mas jamais mesmo "datadas", que isso não existe), tais como, em inglês, muliebrity (a condição de ser mulher) ou vaticination (prevejo que essa é de significado óbvio para nós, pois não?). Estão na cara, graças ao latim que os mais velhos aprenderam e os mais jovens nem de vista chegaram a conhecer.

Querem, no entanto, mandar para as picas (perdão, leitores) flubsy, embrangle, olid, niddering e oppugrnant. Cujos significados não serão por mim esmiuçados pois estou farto de estrangeirismos. Já basta morar num deles. Num estrangeiro, digo.

Cada qual, de per si, que busque na atual edição do Collins, seus significados. Viver é consultar dicionários, já dizia o poeta.

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