Diante das manifestações antifrancesas na China e devido ao caótico percurso da tocha olímpica por Paris, o presidente francês Nicolas Sarkozy enviou o presidente do Senado, Christian Poncelet, o ex-primeiro-ministro, Jean Pierre Raffarin, e seu conselheiro diplomático, Jean-David Levitte, para apaziguar a situação e acalmar as autoridades chinesas.

Segundo diversos especialistas consultados pela AFP, essa iniciativa é arriscada e pode ser interpretada pela China como uma demonstração de fraqueza, além de irritar os parceiros europeus de Paris.

"A tradição chinesa interpreta o envio de uma comissão como o reconhecimento de uma relação de vassalagem. É um ato de submissão e será interpretado como tal", de acordo com Jean-Vincent Brisset, especialista em China do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS).

"A política francesa sofreu uma derrota simbólica", admitiu Dominique Moïsi, do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI).

"A França quis demonstrar ser um país dos Direitos Humanos e agora estende a mão para levar uma palmada", deixando claro para a China que "o país está enfraquecido".

Fortalecido após esse incidente, Pequim pediu nesta terça-feira que a França "tome medidas concretas para salvaguardar as relações" bilaterais, depois da decisão do conselho de Paris que declarou o Dalai Lama "cidadão honorário".

A chancelaria francesa deixou claro que a prefeitura da capital, dirigida pela oposição socialista, atuou nesta nomeação de maneira "independente".

De acordo com especialistas, os chineses decidiram pressionar a França por considerarem o país francês o elo frágil da União Européia.

"Devido ao fato de Nicolas Sarkozy e sua próxima presidência da União Européia, o país se tornou mais visível", destacou Dominique Moïsi. "Era um país muito vulnerável às ameaças do boicote chinês, levando em conta seus investimentos na China, seu orçamento deficitário e sua diplomacia particularmente incoerente", explicou.

A França, que ameaçou boicotar a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, exigindo que a China retomasse um diálogo com o Dalai Lama, calcula que boicotar o evento seria "apreciável", mas "não realista".

Ao enviar os três emissários, a França deixou escapar uma oportunidade de jogar a carta européia e se expõe em uma posição arriscada, podendo contrariar seus parceiros.

"Sarkozy fará de tudo para que qualquer medida relativa à cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos conte com os 27. No entanto, quando a França jogo sozinha, perde toda a vantagem que tinha", apontou François Heisbourg, da Fundação para a Investigação Estratégica (FRS).

"Esta situação desacredita a França", comentou Jean-Vicent Brisset, que está convencido de que "os chineses temem somente uma coisa: uma Europa unida e rígida em relação à China".

Segundo este especialista, o contraste com a determinação do Reino Unido e da Alemanha é assustadora.

O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, anunciou que não irá à cerimônia de abertura e que estaria disposto a receber o Dalai Lama, assim como a chanceler alemã, Angela Merkel, que pretende boicotar o evento e que já se encontrou com o líder espiritual do Tibete.

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