ENTREVISTA-Rússia está blefando, diz presidente georgiano

Por Mark Trevelyan TBILISI (Reuters) - O presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, disse na quarta-feira que a Rússia confiou demais nas suas cartas ao apoiar a independência de duas regiões georgianas, e que é hora de o resto do mundo desmascarar esse blefe e repelir a agressão russa.

Reuters |

Em entrevista no seu gabinete no começo da madrugada de quarta-feira (hora local, começo da noite de terça no Brasil), Saakashvili disse à TV Reuters que a Europa corre um 'perigo mortal' por depender da energia russa, e que a Geórgia poderia ampliar sua importância como rota de passagem de gás e petróleo de modo a reduzir tal dependência.

'O ponto aqui é que os russos estão blefando e estão confiando demais na sua mão', disse Saakashvili, de 40 anos, num inglês fluente. 'Eles têm soldados mais do que suficientes no terreno para enfrentar uma pequena força armada georgiana.

Nunca poderemos derrotar 3.000 tanques em nosso território. Mas tentar intimidar o Ocidente, os norte-americanos? Isso está simplesmente além dos recursos deles [russos].'

Questionado sobre a possibilidade de que a própria adesão da Geórgia à Otan -- prioridade dele -- cause uma guerra da aliança com a Rússia, Saakashvili, respondeu: 'Não acho que a Rússia antes de mais nada tenha recursos para uma Terceira Guerra Mundial, não acho nem que a Rússia tenha recursos para uma nova Guerra Fria, por mais que possam querer'.

Ele qualificou de 'sem-vergonha' a decisão anunciada na terça-feira por Moscou de reconhecer a independência das regiões separatistas da Ossétia do Sul e Abkházia. Mas viu um lado bom: 'Pelo menos facilita muitas coisas para o mundo. Eles constituíram um desafio ao mundo, agora cabe ao mundo lidar com esse desafio'.

'Estou de certa forma tranqüilizado pelas boas reações do Ocidente e em geral do mundo. O que me tranqüiliza é que pelo menos as pessoas vêem a realidade agora', disse ele. 'Cabe agora a nós repelir a agressão russa. Se eles levarem isso adiante, vão continuar, vão também atacar outros países na vizinhança', disse Saakashvili.

Na opinião dele, a Rússia invadiu o seu país porque quer 'controlar 40 por cento mais recursos [energéticos] da Ásia Central e do Cáspio, basicamente'. E por isso, disse, a Europa precisa se mobilizar para não agravar sua dependência em relação à Rússia.

A crise no Cáucaso começou em 7 de agosto, quando Saakashvili enviou tropas para tentar recuperar o controle da Ossétia do Sul, uma república separatista e etnicamente diversa que desde 1992 já gozava de autonomia sob a proteção de Moscou.

A Rússia reagiu enviando tropas que ocuparam não só a Ossétia do Sul como também a Abkházia (outra região na mesma situação) e partes da Geórgia propriamente dita. A França conseguiu mediar uma trégua, mas as tropas russas ainda não completaram a desocupação.

Saakashvili disse que aceitaria algum 'mecanismo internacional' para recuperar o controle da Ossétia do Sul e Abkházia, e afirmou que o assunto deve ser tratado na reunião de emergência da União Européia em 1o de setembro.

'Não se trata mais de mediação ou de diálogo bilateral.

Trata-se de a comunidade internacional falar a uma só voz, tentando restaurar a lei internacional e a ordem mundial.'

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