ENTREVISTA-Pesquisador minimiza risco de golpe na Bolívia

Por Ana María Fabbri LA PAZ (Reuters) - Embora a violência não esteja descartada, a crise política provavelmente será resolvida sem derramamento de sangue, na opinião de um renomado antropólogo da Bolívia, país que vive no domingo um momento importante com o plebiscito sobre a autonomia do Departamento de Santa Cruz.

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O referendo é um desafio de dirigentes locais ao governo de esquerda de Evo Morales, cujo plano de nacionalização dos recursos naturais e promessas de reformar a Constituição para dar mais poderes à maioria indígena irrita a oposição de direita.

'Nem golpe nem guerra civil. Cada um sabe muitíssimo bem que precisa do outro', disse à Reuters recentemente o padre jesuíta e pesquisador Xabier Albó, referindo-se ao conflito entre as regiões andinas, reduto de Morales, e a planície do leste e norte, controlada por setores conservadores.

Albó, que há décadas estuda a questão indígena da Bolívia, considera que os empresários e pecuaristas de Santa Cruz, embora promovam a autonomia regional, 'sabem que para fazer seus negócios e para exportar precisam do Estado e das estradas do oeste'.

Cuba, Nicarágua e Venezuela, cujos governos são aliados de Morales, advertiram na semana passada que o referendo em Santa Cruz busca desestabilizar o presidente. O governo considera a votação ilegal, mas aconselhou seus simpatizantes a não o boicotarem, para evitar a violência.

Na opinião de Albó, os recentes conflitos na região do Chaco (sudeste), onde latifundiários tentaram impedir a reforma agrária em benefício de índios guaranis, são 'os últimos suspiros de um esquema que já teria de ser dado por completamente superado.'

'O componente 'terra' tem um peso importante nesse conflito, mas não é tudo', acrescentou o pesquisador, citando 'a luta entre ricos e pobres, a [questão] étnica e a confrontação política.'

'Acho que o que ocorreu neste país, e ocorre há bastante tempo, é que várias contradições ficaram cada vez mais polarizadas, em duas áreas territoriais', afirmou, lembrando que nas últimas décadas a riqueza, tradicionalmente concentrada nas regiões mineradoras andinas, migrou para as áreas agropecuárias da planície.

Isso acentuou a pobreza nas zonas altas, que têm uma população majoritariamente nativa, ao contrário das terras baixas, onde os indígenas são minoria.

Além disso, prosseguiu, a crise boliviana se tornou um problema político, pois 'a emergência [ascensão] dos povos indígenas das terras altas ao governo polariza a oposição nas terras baixas'.

'O problema da terra no leste é se há ou não superfícies extensas pouco produtivas, que são terras de engorda, mas o que é muito correto é que ali não houve reforma agrária, então ali há injustiças enormes.'

Albó acrescentou que o poder político conservador do leste está relacionado em parte à divisão de grandes latifúndios feita durante a ditadura do general Hugo Banzer, na década de 1970, 'onde os indígenas ficaram reduzidos a algumas zonas muito pequenas'.

'Fazem com que se endividem no próprio trabalho, como no caso da colheita de açúcar, ou de guaranis mantidos nas fazendas em condições subumanas, ou a exploração de castanha no norte.'

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