ENTREVISTA-Aids ameaça milhões;combate deve seguir--especialista

Por Kate Kelland LONDRES (Reuters) - A atenção mundial está se afastando da epidemia de Aids no momento errado e isso significa que uma nova onda da doença poderá infectar milhões de pessoas nos países de alto risco, afirmou um especialista de renome na sexta-feira.

Reuters |

Alan Whiteside, diretor de da divisão de pesquisas sobre HIV/Aids e economia da saúde (Heard) da Universidade de Kwazulu Natal, disse que muitos países africanos, onde a doença representa a maior ameaça, não estão implementando medidas de prevenção de longo prazo e precisam de ajuda para planejar a luta que têm pela frente.

A ameaça da Aids ainda é muito real em lugares como Suazilândia, Lesoto, Botsuana, Namíbia, Zimbábue, Zâmbia, Malauí e África do Sul, afirmou ele, e a percepção de que a comunidade internacional está considerando o caso como "resolvido" é altamente arriscada.

"(O combate) à epidemia da Aids teve um enorme apoio durante muitos anos, mas parece que há uma percepção agora de que ela foi resolvida e podemos voltar nossa atenção para outras questões".

"Isso não é o caso mais enfaticamente em várias partes do mundo. Não é certo voltar nossas costas para isso", disse Whiteseide à Reuters numa entrevista por telefone da África do Sul, onde a doença mata um número estimado em mil pessoas por dia.

Cerca de 33,4 milhões de pessoas no mundo têm HIV, o vírus da imunodeficiência humana sexualmente transmitido que causa a Aids. Desde o surgimento da Aids no começo da década de 1980, quase 60 milhões de pessoas foram infectadas e 25 milhões morreram de causas relacionadas ao HIV.

A África Subsaariana é de longe a pior região afetada, respondendo por 67 por cento das pessoas infectadas com HIV e 91 por cento de todas as novas infecções em crianças, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

TRABALHADORES DA SAÚDE, PROGRAMAS EDUCATIVOS

Whiteside afirmou que os ministérios da Saúde precisam usar fundos de assistência humanitária agora para equipar e treinar funcionários da saúde e produzir programas de educação para o sexo seguro a fim de associar a importância da Aids com um alcance melhor no impacto de longo prazo da doença nos países.

Os Estados Unidos e a África do Sul prometeram recentemente renovar os esforços na luta contra a Aids. Em dezembro, a agência de financiamento para a saúde internacional Unitaid aprovou planos para um "pool de patentes" de medicamentos para ajudar a tornar os novos remédios para o HIV e a Aids disponíveis a um preço mais baixo nos países mais pobres.

Whiteside, no entanto, afirmou que a percepção crescente de que a Aids não é mais uma emergência está destinada a alimentar o desejo de políticos de agir contra novas ameaças.

A mudança climática e o ambiente são as grandes questões do momento, e os políticos podem abandonar a luta contra a Aids, disse ele.

"No momento, milhões de africanos estão sob tratamento para HIV/Aids sob cortesia dos americanos, do Fundo Global e de outros doadores. Esses tratamentos têm de ser para a vida toda, assim, se observamos uma reorganização do financiamento, as pessoas simplesmente vão morrer."

Whiteside salientou os países africanos "hiper-endêmicos", como Malauí e Suazilândia, onde a Aids é tão disseminada que metade de todas as mulheres entre 25 e 29 anos tem HIV ou Aids.

Programas de prevenção são cruciais em tais países, afirmou ele, mas em geral são incompletos e sofrem com a falta de liderança e de uma visão de longo prazo e transversal dos governos.

A Aids também ameaça as instituições civis, como os setores da saúde, da agricultura e da educação, necessários para reduzir a pobreza, fomentar o crescimento econômico e elevar os padrões de vida.

"Não parece que estejamos preocupados com a prevenção nos países hiper-endêmicos", disse.

"Ainda temos novos casos ocorrendo - e isso é ridículo, é estúpido, especialmente quando você olha adiante e vê o que isso significa em termos de números de pessoas que precisarão de tratamento. Se não pusermos nossos esforços na prevenção, provavelmente vamos observar mais ondas."

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