Entrevista com assassino de Itzhak Rabin gera revolta em Israel

Duas entrevistas realizadas com o assassino do ex-primeiro-ministro Itzhak Rabin geraram uma grande onda de indignação e protestos em Israel. Igal Amir, extremista da direita israelense, cumpre pena de prisão perpétua por ter matado a tiros, em 4 de novembro de 1995, o então primeiro-ministro do país.

BBC Brasil |

Dois canais de TV gravaram entrevistas com Amir, que falou com os jornalistas por telefone público da prisão onde se encontra. Os canais 2 e 10 anunciaram que as entrevistas com o assassino iriam ao ar na noite desta sexta-feira, porém depois de uma onda de protestos, o canal 2 resolveu cancelar a transmissão.

Itzhak Rabin foi o premiê israelense que assinou o Acordo de Paz de Oslo, em setembro de 1993, com o líder palestino Yasser Arafat, em Washington.

Rabin foi baleado quando deixava o local em que tinha sido realizada, em Tel Aviv, uma grande manifestação de apoio aos acordos de Oslo.

Pressão

Vários líderes políticos continuam exercendo fortes pressões sobre o canal 10 para que também suspenda a entrevista com Amir. O jornalista Raviv Druker, do canal 10, afirmou que a decisão de realizar a entrevista com o assassino foi "difícil". "Mas consideramos importante que o público saiba quais foram as motivações de Amir e quem o ajudou a cometer o assassinato", afirmou Druker.

Líderes políticos da maioria dos partidos condenaram a decisão do canal, que decidiu romper o boicote decretado pela mídia israelense ao assassino.

O ministro da Defesa e líder do partido trabalhista, Ehud Barak, declarou que "Igal Amir deve apodrecer na prisão até o último de seus dias e não se pode, de maneira nenhuma, permitir que ele participe do diálogo público".

O líder do partido nacional-religioso Mafdal, Zvulun Orlev, afirmou que as entrevistas "quebram o isolamento que deve ser imposto ao assassino, seu castigo deve ser não só a negação da liberdade de movimento como também o isolamento da sociedade".

Dov Lautman, um dos industriais mais importantes de Israel, pediu a empresários que cancelem anúncios planejados para o horário do noticiário no canal 10. "O assassino de Rabin deve sumir do mapa de nossa sociedade e não receber um microfone para falar em publico", disse Lautman.

Herói

Vários israelenses, porém, principalmente de extrema-direita, vêem o assassino de Rabin como um herói. Muitos se opunham ao plano de Oslo e acreditam que a ação de Amir teria prejudicado gravemente o processo de paz em andamento.

Em novembro do ano passado, antes de uma partida de futebol em Haifa, milhares de pessoas em um estádio vaiaram durante o minuto de silêncio prestado em homenagem ao aniversário da morte do ex-premiê israelense e chegaram a gritar o nome de Igal Amir.

A cena causou um choque profundo em Israel, pela grande quantidade de pessoas, que, em público, demonstravam aprovação ao assassinato.

A Associação Israelense de Futebol acabou punindo o time Beitar de Jerusalém pelo comportamento de seus torcedores.

Depoimento

As TVs chegaram a divulgar trechos da entrevista com Amir para promover sua transmissão. Nesses, Igal Amir contou que foi influenciado pelos "maiores especialistas em segurança do país" a cometer o assassinato. "(Ariel) Sharon e Raful (o ex-chefe do Estado Maior, Rafael Eitan) disseram que esse acordo (o acordo de Oslo) levaria a uma tragédia", disse Amir.

Amir afirmou que queria parar o processo de paz e teve dúvidas se, para conseguir seu objetivo, seria mais eficaz assassinar o então ministro das Relações Exteriores e atual presidente de Israel, Shimon Peres, ou o próprio primeiro-ministro Itzhak Rabin.

Finalmente decidiu assassinar Rabin pois "era claro que sem ele, eles não poderiam fazê-lo (continuar o processo de paz)".

"Rabin tinha legitimidade para fazer tudo e entregar tudo (os territórios ocupados), e depois que Rabin se foi, Peres não pôde fazer nada", disse ele aos jornalistas.

Amir também disse que resolveu cometer o assassinato depois que descobriu como era "fácil" e contou que em algumas oportunidades anteriores esteve perto de Rabin e poderia tê-lo matado "sem problema nenhum".

Os Serviços Penitenciários anunciaram que Amir vai ser punido por ter dado entrevistas sem receber a permissão das autoridades. Ele deverá perder o direito a visitas de familiares, não poderá usar o telefone e será transferido para outra prisão, no sul do país.

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