Entre lágrimas e alívio, vítimas dos padres pedófilos conversaram com o papa

Disse a ele que havia um câncer em sua igreja, que devia fazer alguma coisa: com a voz ainda embargada, várias vítimas de abusos sexuais por parte de membros do clero católico contaram suas provações e o alívio que sentiram no encontro com o Papa Bento XVI.

AFP |

No terceiro dia da visita aos Estados Unidos, Bento XVI surpreendeu os fiéis americanos ao receber, de improviso na quinta-feira, durante 25 minutos, cinco vítimas de padres pedófilos na capela da Nunciatura Apostólica em Washington.

Três dentre eles, Bernie McDaid, 52 anos, e Olan Horne, 48 anos, ex-meninos do coro na região de Boston, e Faith Johnston, uma jovem abusada por um padre na reitoria quando tinha 14 anos, concederam à rede de televisão CNN uma entrevista "histórica".

Bento XVI, que lamentou várias vezes o fato e falou sobre a "vergonha" da Igreja com estes casos, rezou com as vítimas, ouvindo-as depois, separadamente, uma a uma.

O escândalo dos padres pedófilos nos Estados Unidos, que explodiu em 2002 em Boston, pôs à luz os comportamentos de várias décadas de 4.000 a 5.000 padres ante 14.000 crianças e adolescentes.

"Ainda estou sob o efeito do choque", contou à CNN Faith Johnston que, ao ver o papa, não pôde pronunciar uma palavra, em meio aos soluços.

"Nada pude dizer. Derramei muitas lágrimas. Acho que minhas lágrimas disseram tudo", contou a jovem acrescentando que ela recebeu "uma mensagem de esperança durante a entrevista".

Bernie McDaid, disse que "apertou as mãos do papa, contando em seguida que, quando era criança, havia sido abusado sexualmente quando cantava no coro", pelo padre Joseph Birmingham, um pedófilo que fez o mesmo com outras crianças na paróquia.

O padre havia sido transferido em seguida para uma paróquia vizinha onde continuou a violar crianças e jovens.

"Não era apenas um abuso sexual, mas espiritual. Eu disse a ele que havia um câncer em sua igreja", acrescentou McDaid assegurando que Bento XVI o tinha compreendido.

"Ele me pediu perdão", contou por sua vez Olan Horne, que freqüentava quando menina a paróquia da região de Boston onde foi abusada pelo mesmo padre que Bernie McDaid.

"Pareceu-me que (o papa) compreendia intrinsicamente o que lhe falávamos", testemunhou este homem, qualificando o encontro com Bento XVI de "momento histórico". Ele também se felicitou por ter tido um acesso "sem nenhuma filtragem" ao pontífice.

"Fomos autorizados a dispor do tempo necessário para passar a ele nossa mensagem. Foi uma conversa franca", acrescentou Olan Horne que perdeu a fé católica.

"Não vou mais à missa, mas quando (o papa) falou dos abusos sexuais durante a homilia, fique emocionado (...). esperava por isso durante muito tempo", a acrescentou Bernie McDaid. Já em 2003 ele havia feito uma viagem a Roma em vão para pedir um encontro com João Paulo II para denunciar os padres pedófilos nos Estados Unidos.

As três vítimas asseguraram ter extraído "esperança" deste encontro: "uma esperança que deverá ser seguida, logo, pelos atos", resumiu Bernie McDaid.

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