Entenda o conflito no Sri Lanka

Duas aeronaves do grupo rebelde Tigres Tâmeis fizeram uma incursão surpresa na capital do Sri Lanka, Colombo, nesta sexta-feira, sendo abatidas pelos militares cingaleses. Ainda não está claro se elas estavam em uma missão suicida, mas o incidente acabou resultando em duas mortes e pelos menos 50 feridos, após um dos aviões ter caído em um prédio governamental e outro na região de uma base aérea próxima a Colombo.

BBC Brasil |

Este foi o mais recente capítulo da guerra de mais de 25 anos travada entre o governo do Sri Lanka e o grupo rebelde separatista Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE, na sigla em inglês), que reivindica a criação de um Estado para a etnia tâmil no norte e no leste do país.

No último dia 25 de janeiro, o exército cingalês afirmou estar "muito perto" de derrotar de maneira definitiva os insurgentes, após o anúncio da tomada da cidade de Mullaitivu, considerada o último reduto dos Tigres Tâmeis no nordeste do país.

A tomada de Mullaitivu pelas tropas governamentais - que não foi confirmada pelos rebeldes - aconteceu após outras vitórias do governo cingalês, entre elas, a captura, no início de janeiro, da cidade de Kilinochchi, considerada a capital dos insurgentes, e da península de Jaffna.

A BBC Brasil preparou uma série de perguntas e respostas sobre o conflito entre rebeldes e governo no Sri Lanka.

O Sri Lanka é um país multiétnico com uma população de cerca de 21 milhões de habitantes.

Antigo centro do budismo, o país também tem um número significativo de hinduístas, cristãos, muçulmanos e comunidades menores de outras religiões.

As origens do conflito remontam ao período em que a ilha se tornou independente da Grã-Bretanha, em 1948.

Embora os anos imediatamente posteriores à independência tenham sido de relativa paz, logo começaram as tensões entre a maioria cingalesa - que é majoritariamente budista - e a comunidade tâmil, que é formada por hinduístas e católicos romanos.

As duas comunidades falam línguas diferentes - cingalês e tâmil - e ambas afirmam que seus ancestrais são os habitantes originais da ilha.

Logo após a independência, a comunidade tâmil começou denunciar uma suposta discriminação por parte da maioria cingalesa, que dificultava o acesso dos tâmeis a empregos públicos e vagas na universidade.

À época, o governo argumentava estar corrigindo os desequilíbrios do período colonial, quando os cingaleses acusavam os britânicos de dar tratamento preferencial aos tâmeis.

Esta discriminação por parte do governo foi citada pelo líder dos Tigres Tâmeis, Prabhakaran, como o principal motivo que o levou a criar, em 1972, a milícia Novos Tigres Tâmeis, que quatro anos depois foi rebatizada como Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE, na sigla em inglês).

Desde então, a luta pela criação de um Estado tâmil foi usada como justificativa para inúmeros ataques suicidas e outros atentados empreendidos pelos Tigres Tâmeis contra alvos civis e militares.

O primeiro ataque registrado feito pelos Tigres Tâmeis aconteceu em 1983, quando, 13 soldados cingaleses foram mortos por militantes tâmeis em Jaffna, que é considerada um centro espiritual e histórico dos tâmeis.

Poucas vezes a guerra civil no Sri Lanka foi tão violenta como agora.

O exército cingalês está empreendendo uma ofensiva contra os rebeldes tâmeis que busca uma derrota definitiva de suas forças o mais rápido possível.

A captura da cidade de Mullaitivu, logo depois da queda da "capital" rebelde, Kilinochchi, foi considerada uma grande vitória simbólica para o governo.

Embora a confirmação exata do número de mortos nos recentes combates não possa ser verificada de maneira independente - o acesso às áreas é controlado pelo governo - há poucas dúvidas de que os dois lados sofreram perdas significativas.

Dezenas de milhares de pessoas também perderam suas casas nos últimos meses.

Isto ocorreu principalmente no norte do país, onde os militares lançaram ofensivas contra áreas controladas pelos Tigres Tâmeis, depois de tomarem o controle de regiões no leste em 2007.

Segundo as agências de auxílio humanitário, há sérias dificuldades para levar alimentos para os desabrigados.

Os conflitos aumentarem após a vitória nas eleições do presidente Mahinda Rajapaksa, em 2005.

Durante a campanha, ele rejeitou dar maior autonomia para os tâmeis no norte e no leste do país e prometeu revisar as negociações de paz entre o governo e os rebeldes.

Desde então, a ofensiva militar contra os insurgentes aumentou de maneira significativa.

Em 2008, o governo abandonou formalmente um cessar-fogo de seis anos de duração com os rebeldes que havia sido mediado pela Noruega.

Alguns analistas afirmam que os rebeldes provocaram o endurecimento da atitude do governo ao lançarem ataques durante a trégua.

Outros acreditam que os ataques eram uma estratégia dos insurgentes para ganhar mais força durante as negociações.

Os dois lados participaram de seis rodadas de negociações desde a trégua de 2002.

Governo e rebeldes concordaram em trocar prisioneiros de guerra e os insurgentes chegaram até mesmo a abandonar a reivindicação pela criação de um Estado separado para os tâmeis.

Este foi o período em que o país esteve mais próximo de um acordo de paz.

Mas os Tigres Tâmeis abandonaram as negociações em 2003 e novamente em 2006, afirmando que eles estavam sendo colocados de lado.

Entre 2006 e 2008, os dois lados começaram a se acusar mutuamente de desobediência ao cessar-fogo, enquanto o país voltava ao estado de guerra civil.

Desde então, as hostilidades no nordeste do Sri Lanka aumentaram, ameaçando a vida de milhares de civis que vivem em regiões dominadas pelos rebeldes.

Em fevereiro de 2009, os principais mediadores do conflito - Estados Unidos, União Europeia, Japão e Noruega - pediram aos rebeldes que abandonassem as armas para discutir um fim das hostilidades com o governo.

Com os avanços sobre áreas rebeldes no leste (em 2007) e norte do país (em 2008) a maior parte do Sri Lanka encontra-se agora sob o domínio do governo.

Mas mesmo assim, os Tigres Tâmeis têm demonstrado sua capacidade de fazer uma guerra de guerrilha por meio de ataques suicidas, assassinatos e até mesmo ataques aéreos feitos a partir de bases secretas nas florestas.

Além disso, o governo vem aumentando seus gastos militares, ao mesmo tempo em que caíram as doações à guerrilha feitas por cidadãos dos EUA, Canadá e países da Europa.

Calcula-se que durante todo o período da guerra civil no Sri Lanka, 70 mil pessoas tenham morrido e outras milhares tenham buscado refúgio em países ocidentais, o que trouxe graves consequências econômicas e sociais para o país.

Tanto os rebeldes quanto o Exército cingalês são acusados de abusos dos direitos humanos por organizações como a Anistia Internacional.

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