Entenda a questão dos uigures na China

Os conflitos recentes na região autônoma de Xinjiang são o mais novo episódio em uma longa história de discórdia entre o governo central da China e a minoria uigur. A BBC Brasil preparou esta sessão de perguntas e respostas para ajudar a esclarecer as principais dúvidas sobre o assunto.

BBC Brasil |

Quem são os uigures?
Os uigures são muçulmanos que habitam predominantemente a região autônoma de Xinjiang, no noroeste da China, que faz fronteira com o Paquistão e o Afeganistão. Sua língua é parente da língua turca e os uigures se veem culturalmente e etnicamente mais ligados à Ásia Central do que ao resto da China.

Por séculos, as principais atividades econômicas da região vinham sendo a agricultura e o comércio, com cidades como Kahshgar prosperando como entrepostos da famosa Rota da Seda.

No começo do século 20, os uigures chegaram a declarar independência. Mas, em 1949, a região passou a ser controlada pela China comunista.

Oficialmente, Xinjiang é uma região autônoma da China, como o Tibete, que fica mais ao sul.

Em décadas recentes, a região presenciou uma intensa migração de chineses de etnia han, e vários uigures passaram a reclamar de discriminação. Os chineses de etnia han compõem cerca de 40% da população de Xinjiang, enquanto 45% são uigur.

A população da capital da região, Urumqi, de cerca de 2,3 milhão de pessoas, é hoje majoritariamente han.

Como a China vê os uigures?
Pequim diz que militantes uigures vem realizando uma campanha violenta pela independência da região, com ataques a bomba, sabotagem e incitando a população à revolta.

Desde os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, a China vem acusando separatistas uigures de manter ligações com a Al-Qaeda.

O governo chinês diz que os uigures foram treinados e doutrinados por militantes islâmicos no Afeganistão, mas há poucas evidências que confirmem essas afirmações.

Mais de 20 uigures foram capturados por militares americanos na sua invasão ao Afeganistão em 2001. Apesar de terem sido mantidos na prisão de Guantánamo por seis anos, estes uigures nunca chegaram a ser formalmente indiciados.

A Albânia recebeu cinco deles em 2006, outros quatro foram para o território britânico das Bermudas, em 2009, enquanto o arquipélago de Palau, no Oceano Pacífico, acolheu os restantes.

Quais são as principais queixas dos uigures contra a China?
Ativistas dizem que atividades e práticas comerciais, culturais e religiosas dos uigures têm sido gradualmente suprimidas pela Estado chinês.

A China foi acusada de intensificar a repressão contra aos uigures depois de protestos de rua nos anos 90 e nas semanas que antecederam os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.

Na última década, vários uigures proeminentes foram presos ou tiveram que buscar asilo no exterior, após serem acusados de terrorismo
Analistas dizem que a China exagera ao falar da ameaça de separatistas uigures para justificar a repressão na região.

O governo chinês também é acusado de tentar diluir a influência uigur na região de Xinjiang, promovendo migrações em massa de chineses han, o maior grupo étnico do país, para a região.

Como é a situação atual em Xinjiang?
Na última década, uma série de projetos trouxeram prosperidade às maiores cidades da região.

O trabalho de jornalistas locais e estrangeiros é monitorado de perto pelas autoridades chinesas e existem poucas fontes independentes de notícias em Xinjiang.

A China tem destacado o desenvolvimento da economia da região e uigures entrevistados pela imprensa têm evitado fazer críticas ao governo central.

Mas, ataques ocasionais contra alvos chineses indicam que o movimento separatista uigur ainda é forte - e violento.

O que detonou a atual onda de violência em Xinjiang?
Há relatos de que a morte, em junho, de dois imigrantes uigures, na província de Guangdong, no sul da China, teria provocado a reação de integrantes da etnia uigur em Xinjiang contra chineses da etnia dominante Han.

Os dois imigrantes morreram durante uma briga em uma fábrica que começou após rumores, publicados na internet, de que trabalhadores da etnia uigur teriam estuprado duas mulheres.

Autoridades chinesas dizem que o incidente foi usado como pretexto para o início da onda de violência no domingo, em que mais de 150 pessoas, das duas etnias, morreram.

Autoridades responsabilizam separatistas que vivem fora do país de estar por trás da violência, enquanto uigures exilados dizem que a polícia chinesa abriu fogo indiscriminadamente durante um protesto pacífico que reivindicava a abertura de uma investigação sobre a morte de uigures nos confrontos na fábrica no sul da China.

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