Entenda a estrutura de poder do Irã

Os recorrentes protestos da oposição iraniana, que tomou as ruas por diversas vezes neste ano para protestar contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, expõem a grande divisão política do país.

iG São Paulo |

Nos últimos 30 anos, as mais importantes autoridades do Irã discordaram muitas vezes, mas o reflexo desse conflito entre a população é sem precedentes. Entenda como funciona a estrutura de poder do país:

Líder supremo: aiatolá Ali Khamenei

AP
Khamenei é o líder supremo
Khamenei é o líder supremo

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, é a figura mais
poderosa do país.

Ele nomeia o chefe do Judiciário, seis dos 12 membros do Conselho dos Guardiões, os comandantes de todas as Forças Armadas, líderes das orações das sextas-feiras e o chefe da rádio e da televisão estatais. Ele também confirma o resultado da eleição presidencial.

Khamenei foi figura-chave na Revolução Islâmica e um confidente próximo do aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica. Antes de se tornar líder supremo do Irã, em caráter vitalício, ele foi presidente do Irã entre 1981 e 1989.

O líder também teve papel fundamental na reeleição de Mahmoud Ahamadinejad, neste ano, ao validar o resultado do pleito mesmo após acusações de fraude.

Presidente: Mahmoud Ahmadinejad

Mahmoud Ahmadinejad, que ocupa a Presidência do Irã desde 2005, esteve ativamente envolvido na Revolução Islâmica e foi um dos fundadores do grupo estudantil que ocupou a embaixada dos Estados Unidos em Terã em 1979. Ele nega ter sido um dos sequestradores de reféns americanos feitos à época por revolucionários na embaixada.

Reuters
Ahmadinejad é presidente desde 2005

Ahmadinejad é presidente desde 2005

Ahmadinejad foi um dos primeiros não integrantes do clero a ser eleito presidente do Irã desde 1981, ao derrotar o então presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, em eleições em junho de 2005.

Muito do apoio que recebe vem de setores mais pobres e religiosos da população iraniana. A maior parte dos que o apoiam vive fora da capital, Teerã.

É linha-dura tanto em casa - onde não aprova o desenvolvimento ou reforma de instituições políticas - como no exterior, onde tem mantido uma postura anti-Ocidente e atitudes combativas no que se refere ao programa nuclear do Irã.

Em novembro de 2009, Ahmadinejad visitou o Brasil e se encontrou com o presidente Lula. A polêmica viagem provocou protestos em cidades brasileiras e preocupação em governos como o dos Estados Unidos.

Os reformistas

O movimento de reforma iraniano é um movimento político liderado por um grupo de partidos políticos e organizações que apoiam os planos de Mohammad Khatami de introduzir maior liberdade e democracia.

Em 1997, Khatami foi eleito presidente com promessas de maior liberdade de expressão, assim como medidas para combater o desemprego e acelerar privatizações. Entretanto, muitas de suas medidas de liberalização foram bloqueadas pelas instituições conservadoras do país. Khatami concorreu inicialmente às eleições de 2009, mas depois se retirou da disputa e apoiou Hossein Mousavi.

EFE
Mousavi é um dos líderes da oposição
Mousavi é um dos líderes da oposição

Mousavi, 68 anos e ex-primeiro-ministro, estava fora da política há alguns anos, mas na última eleição retornou para concorrer como um candidato moderado. Ele nasceu no leste do Azerbaijão e se mudou para Teerã para estudar arquitetura. É casado com Zahra Rahnavard, ex-chanceler da Universidade de Alzahra e assessora política do ex-presidente iraniano Mohammad Khatami.

Um dos seus aliados mais próximos nessa eleição foi Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, ex-presidente do Irã, hoje à frente de dois dos órgãos mais importantes do governo: o Conselho de Expediência, que julga disputas sobre legislação, e a Assembleia de Especialistas, que nomeia e, em teoria, substitui, o líder supremo.

Outras figuras importantes do movimento pró-reforma são Mohsen Mirdamadi, Hadi Khamenei, Mohsen Aminzadeh e Mostafa Tajzadeh.

A Guarda Revolucionária e o Exército

As Forças Armadas são compostas pela Guarda Revolucionária e pelas forças comuns, todas sob um comando geral único.

O Corpo da Guarda da Revolução Islâmica do Irã foi criado logo após a revolução para defender o sistema islâmico do país e para oferecer um contrapeso para as Forças Armadas. Desde então, tornou-se uma importante força militar, política e econômica no Irã, com fortes vínculos com o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad, um de seus ex-membros.

Calcula-se que a força tenha 125 mil tropas ativas. Ela tem suas próprias tropas terrestres, marinhas e aéreas, e controla as armas estratégicas do Irã.

A guarda também tem uma presença poderosa em instituições civis e, acredita-se, controla cerca de um terço da economia do Irã por meio de uma série de subsidiárias.

As milícias

A Guarda Revolucionária também controla a Força de Resistência Basij, uma milícia voluntária islâmica com cerca de 90 mil homens e mulheres e capacidade adicional de mobilizar quase um milhão de pessoas.

Em tempos de crise, a Basij, ou Mobilização dos Oprimidos, é chamada com frequência às ruas para acabar com a discórdia por meio da força. Ela possui núcleos em todas as cidades do país.

O clero

O clero domina a sociedade iraniana. Apenas membros do clero podem ser eleitos para a Assembleia dos Especialistas, que nomeia o líder supremo, monitora sua atuação e pode, em teoria, retirá-lo do cargo se ele for considerado incapaz de cumprir suas funções. Atualmente, a assembleia é chefiada pelo aiatolá Ali Rafsanjani, tido como um conservador pragmático.

O ex-presidente Mohammad Khatami acusou o clero de bloquear as reformas e alertou para os perigos do "despotismo religioso"
O clero também domina o Judiciário, que é baseado na lei islâmica, ou sharia.

Nos últimos anos, conservadores de linha-dura vêm usando o sistema Judiciário para minar reformas, aprisionando personalidades reformistas e jornalistas, assim como fechando jornais pró-reformas.

Aiatolá dissidente: Hoseyn Ali Montarezi

Um dos clérigos dissidentes mais importantes do Irã, o aiatolá Hoseyn Ali Montazeri, morreu na noite de sábado aos 87 anos, de acordo com informações da agência de notícias estatal iraniana Irna.

AFP
Montazeri em foto de 2005

Montazeri em foto de 2005

Ele acusava os governantes iranianos de impor uma ditadura em nome do Islã e disse que a libertação que deveria ter vindo após a revolução de 79 nunca ocorreu.

Montazeri era uma das figuras mais respeitadas entre os xiitas e chegou a ser indicado como sucessor do fundador da República Islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini.

Os dois se desentenderam sobre questões de direitos humanos poucos meses antes de Khomeini morrer de câncer, em 1989. Em 1997, Montazeri teve um famoso embate com o sucessor de Khomeini, Ali Khamenei, depois de questionar os poderes do líder supremo e de pedir mais transparência na avaliação dos fracassos da revolução, o que acabou levando a sua marginalização.

Apesar da idade e da saúde frágil, Hoseyn Ali Montazeri apoiou as alegações da oposição de que os resultados da eleição de 2009, que deram a Ahmadinejad a reeleição, haviam sido fraudados.

Com BBC

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