Enrique Ostrovski, de artesão a protético ortopédico

Shaní Gerszenzon. Montevidéu, 11 abr (EFE).- De um simples artesão do interior do Uruguai, Enrique Ostrovski se tornou um protético ortopédico cobiçado na Espanha, Chile, Israel, Alemanha e nos Estados Unidos, e têm entre seus clientes Irene Vila, vítima do grupo ETA, e o jogador uruguaio Darío Silva.

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Em sua oficina em Rivera, uma cidade uruguaia situada a 500 quilômetros ao norte de Montevidéu, Ostrovski fabricava carrocerias para lanchas e acessórios para carros até que um dia, há dez anos, descobriu essa habilidade ao fabricar uma prótese para ajudar um amigo deficiente.

"Ele precisava subir com muletas em uma carroça, com a qual vendia lenha", contou à Agência Efe este uruguaio de 65 anos e de raízes polonesas, que desde então começou a aprender técnicas ortopédicas para fabricar as próteses que lhe deram fama.

Sua principal descoberta foi a matéria-prima utilizada, a fibra de carbono, um material "mais leve" que o usado normalmente, e a instalação de um dispositivo hidráulico que confere maior flexibilidade, explicou.

Em sua casa de Rivera, uma localidade na fronteira com o Brasil e na qual vivem pouco mais de 100 mil habitantes, Ostrovski tem uma pequena oficina no qual mistura os produtos, elabora os materiais e desenha as próteses. A fabricação leva ao redor de uma semana.

"Todos os dias recebo em sua casa dezenas de ligações. Recebo pedidos de todo o Uruguai, do Chile e da Europa", afirmou o artesão, que começou a ser conhecido em seu país depois que o ex-jogador de futebol Dario Silva, que perdeu a perna direita após um acidente de trânsito, o procurou para encomendar uma prótese.

O ex-jogador que passou por clubes espanhóis como Málaga e o Espanyol ligou para o especialista depois de assistir uma reportagem na televisão uruguaia sobre seu trabalho. Há mais de um ano Silva está com a nova prótese.

"Ele até joga futebol com a prótese", orgulha-se Ostrovski.

Também teve bom resultado a que fabricou para a espanhola Irene Vila, que em 1991 perdeu suas duas pernas em um atentado do grupo terrorista ETA.

Ostrovski confessa que se emocionou ao conhecer a história de Irene, que aos 12 anos foi alvo de uma bomba jogada contra o veículo na qual viajava a caminho da escola com a sua mãe, María Jesús González, quem também perdeu uma perna e o braço direito.

A espanhola soube do profissional uruguaio pelo seu namorado, que escutou a história da recuperação de Silva.

Após ligar para ele, viajou para Montevidéu e lá Ostrovski tirou as medidas com um molde de gesso. Tempos depois, Irene foi a Rivera para experimentar a prótese da perna direita.

"Quando coloquei a protése em Irene e ela começou a andar seu rosto se iluminou de tanta felicidade", lembrou o artesão, que afirma que "esses momentos" são os melhores de seu trabalho.

O uruguaio não só ganhou reconhecimento pela qualidade de suas próteses e sua técnica inovadora, que não demorou a patenteá-la, mas é reconhecido pelo seu "humanismo".

Muitas das pessoas que procuram por Ostrovski os fazem porque sabem que quando alguém não tem recursos econômicos, o protético ortopético faz a prótese mesmo assim.

Além disso, seus preços são notavelmente mais baixos que os cobrados pelo restante da indústria. Irene chegou a ter um orçamento de US$ 55 mil por uma prótese similar a feita por Ostrovski, que cobrou US$ 4 mil.

"Não estou interessado em ficar rico, prefiro ficar tranquilo, mas em Rivera", disse Ostrovski, que já recebeu e rejeitou ofertas de trabalho em Israel e nos Estados Unidos.

O protético ortopedista uruguaio viajará à Espanha em algumas semanas de férias. Lá se encontrará com Irene para estudar a possibilidade de fazer uma prótese para sua perna esquerda e outra para sua mãe.

"Também tenho pedidos em Portugal e em Londres", acrescentou.

Durante a semana, está sempre em sua oficina e nos fins-de-semana viaja de carro pelo país para atender pedidos e tomar medidas de novas próteses.

Não se imagina como um "milionário ou vivendo em outro local", sobretudo porque admite que não quer ficar longe dos netos e dos churrascos que faz aos domingos. EFE sgm/dm

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