Empresas e governos se sentem ameaçados por luta climática--ONU

Por Matthias Williams NOVA DÉLHI (Reuters) - Certos países e certas empresas sentem-se ameaçados pelos esforços crescentes de combate às mudanças climáticas, disse nesta quinta-feira o chefe climático da ONU, Yvo de Boer, depois de outras autoridades terem falado de uma campanha para minar um consenso em relação ao aquecimento global.

Reuters |

De Boer falou em meio a uma controvérsia em torno de projeções incorretas sobre derretimento de geleiras feitas pelo painel climático das Nações Unidas. O erro nas projeções levou ao questionamento da credibilidade do painel e a ataques pessoais contra seu chefe, Rajendra Pachauri.

Pachauri declarou que não vai renunciar ao cargo em função de uma previsão de que as geleiras do Himalaia desaparecerão até 2035.

"Eu gostaria de saber se há um ataque organizado contra a comunidade científica, e de onde está partindo", disse De Boer a jornalistas.

"Não sei se há uma campanha. Sei que há empresas e países que estão muito seriamente preocupados com a possibilidade de serem economicamente prejudicados por ações ambiciosas para fazer frente às mudanças climáticas", acrescentou.

Pachauri disse ao jornal Financial Times na quarta-feira que os ataques ao Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC) e a ele próprio são "cuidadosamente orquestradas" por céticos climáticos e interesses corporativos.

De Boer falou que a projeção errônea feita em um estudo de 2007 pode ser usado como munição por céticos climáticos. Mas defendeu o histórico de atuação de Pachauri e disse que o erro não enfraquece o consenso internacional amplo sobre as mudanças climáticas.

"Árvores altas recebem muito vento. O Dr. Pachauri é uma árvore alta", disse ele ao ser perguntado sobre os ataques a Pachauri.

Erros em relatórios do IPCC podem ter efeito prejudicial, já que as conclusões do painel servem de balizas para políticas governamentais. O governo indiano e alguns pesquisadores climáticos criticaram o IPCC por ter exagerado o encolhimento das geleiras do Himalaia.

Em declarações separadas feitas na quinta-feira, o ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh, disse que o governo criou um painel nacional sobre as mudanças climáticas e que o organismo entregará sua primeira avaliação em novembro.

"Não é um rival do IPCC -- é uma espécie de IPCC indiano", disse Ramesh ao canal de notícias indiano Times Now. "Não podemos depender unicamente do IPCC."

"Já tivemos equívocos sobre as geleiras, equívocos sobre a Amazônia, equívocos sobre os picos nevados, sobre algumas montanhas, mas o IPCC é um organismo responsável", acrescentou.

A polêmica surgiu após a cúpula da ONU sobre mudanças climáticas em Copenhague, em dezembro, que produziu resultados apenas moderados.

Desde então, mais de 50 países, responsáveis por quase 80 por cento das emissões globais, se comprometeram com metas para combater as mudanças climáticas. A próxima reunião anual da ONU será no México, no final do ano.

O fato de as negociações da ONU não terem conseguido resultar em um pacto, apesar do prazo final fixado para o fim de 2009, dois anos depois de as negociações terem sido iniciadas em Bali, na Indonésia, em 2007, pôs em dúvida o papel futuro da ONU.

Enquanto isso estão previstas reuniões menores entre diversos agrupamentos de países, mas De Boer disse que elas não prejudicarão a capacidade da ONU de orquestrar um pacto mais substancial.

"Não é uma situação de ou uma coisa, ou outra", disse.

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