A polícia espanhola investiga as ligações entre um advogado basco e um empresário em um esquema para dar moradia e trabalho a membros foragidos do grupo separatista ETA no Brasil. Há uma semana, com a prisão do advogado basco Ignácio Goyoaga Llano, defensor de integrantes do ETA, os policiais descobriram dois manuscritos que citavam a negociação com o empresário, um industrial de Navarra, no País Basco, no nordeste da Espanha, cujo nome não foi divulgado.

Segundo a polícia, o industrial estava sendo ameaçado de morte e forçado a pagar 120 mil euros (cerca de R$ 350 mil) por conta do "imposto revolucionário", uma cota imposta pelo ETA aos empresários da região para financiar sua causa.

Goyoaga Llano seria o intermediário das negociações. De acordo com a polícia, os documentos encontrados no escritório do advogado datam de abril e novembro de 2008 e apresentam detalhes sobre a extorsão do empresário.

Em uma carta, o empresário diz aceitar pagar a quantia por meio de suas empresas no Brasil. No documento que consta do processo judicial aberto pelo Tribunal da Audiência Nacional, responsável pelo caso, o empresário confirma a "intenção de levar adiante o pagamento", mas fala em "uma série de dificuldades para efetuá-lo".

O empresário teria oferecido, então, pagar a quantia por meio de seus investimentos e residências no Brasil, "inclusive com trabalho e moradia" para os membros do ETA.

Correio

Segundo a assessoria do juiz Fernando Grande-Marlaska, da Audiência Nacional, o advogado "cumpria funções de correio do ETA, marcando encontros para recolher o dinheiro extorquido e fazendo levantamento dos bens dos empresários coagidos".

"Certamente, ele mesmo (Goyoaga Llano) sabia que a vítima (o empresário) tinha investimentos no Brasil", disse a assessoria. "Ele tinha uma ficha do empresário em que relatava detalhes até de onde (o empresário) passava as férias com a família. Um catálogo completo para a comunicação com o ETA."

Uma porta-voz do Ministério do Interior da Espanha, Maria Jesus Gallego, disse à BBC Brasil que a descoberta do acordo envolvendo o Brasil "foi uma surpresa".

"Que nos conste, é a primeira vez que se encontra um caso assim, de um empresário que tenha negociado com o ETA uma forma de pagamento com essas características", disse Gallego.

Plano de fuga

A apreensão dos documentos ocorreu durante uma batida policial no escritório de Goyoaga Llano, em Viscaya, quando a polícia procurava provas de outro crime.

O advogado é acusado de participar de um plano para tirar da prisão dois membros do ETA: Igor Solana Matarrán e Jorge García Sertuxta, este último condenado a 30 anos de prisão por tentar matar o rei Juan Carlos em 1995.

Sertuxta foi defendido por Goyoaga Llano. O plano era tirar Sertuxta do pátio do presídio de alta segurança de Huelva com um helicóptero.

A polícia descobriu o plano e já prendeu três pessoas, que deverão prestar depoimento na próxima semana. Procurado pela BBC Brasil, o grupo de advogados Gestoras Pró-Anistia, responsável pela defesa dos três detidos, não quis comentar o caso.

A Embaixada do Brasil em Madri disse que não tem nenhuma notificação sobre a investigação, já que se trata de uma oferta particular de um investidor.

Segundo a embaixada, o governo brasileiro só entraria em ação caso os investigadores espanhóis pedissem ajuda à Polícia Federal para a captura de foragidos no país.

Mesmo nesse caso, uma futura extradição de membros do ETA dependeria de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, de acordo com a embaixada.



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