Empresário ajudou consulado em resgate de brasileiros no Japão

Paranaense Walter Saito cedeu nesta missão cinco apartamentos de um dos prédios de sua empresa, dois ônibus, uma van e um caminhão

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

“Está ouvindo este alarme?”, pergunta o empresário Walter Toshio Saito, de 43 anos, por telefone. “É sinal de que outro terremoto vai começar”. Sem demonstrar tensão, o empresário, que nasceu em Londrina (Paraná) e vive há 20 anos no Japão, explica à reportagem do iG que, toda vez que surgem os sinais de um novo tremor, o aparelho celular emite um alarme, para que haja tempo de tomar providências. O serviço, diz, ajuda a lidar com os tremores que o acompanham desde que chegou ao país, aos 22 anos. “Somos obrigados a nos acostumar”, explica.

Arquivo Pessoal
Empresário Walter Toshio Saito (em pé, à direita), com grupo de brasileiros resgatado
O tremor sentido por ele na penúltima sexta-feira (11) parecia mais um. Saito viajava numa estrada expressa em Kirio, província de Guma, em direção à sua cidade, Kamisato (Saitama), quando notou que o automóvel começou a ser jogado pela lateral da pista. Diante do tremor, pediu para que o motorista estacionasse e, ainda dentro do carro, observou o movimento dos postes de luz, que “balançavam como se acenassem ‘tchau’”. Não imaginava que acabava de testemunhar um dos maiores terremotos da história do Japão, que deixaria mais de 9 mil mortos.

“Geralmente, você conta um minuto e para. Dessa vez não parava”, lembra o empresário. A dimensão da tragédia foi observada em casa, onde vive com a mulher e três filhos – de 3, 8 e 15 anos – ao assistir às imagens ao vivo da TV. No mesmo dia, soube das dificuldades que as autoridades enfrentavam para levar alimentos para a população das áreas mais afetadas, no norte e nordeste; no dia seguinte, telefonou para um centro de distribuição de alimentos. “Eles me disseram que a maior necessidade era arroz”, conta.

Em menos de 24 horas, Saito havia arrecadado três toneladas de alimentos com a ajuda de amigos e funcionários de suas empresas – que atuam nas áreas de RH, educação infantil e exportação agrícola. Às 18h de domingo (13), ele seguiu, por caminhão, até Sendai (em Miyagi), uma das cidades mais afetadas pelo tsunami que se seguiu aos tremores, no nordeste japonês, para levar o carregamento. Como não tinha passe livre para entrar na cidade – àquela altura cercada pelas autoridades – a viagem de cerca de 400 quilômetros levou dez horas e meia.

A viagem e a campanha por alimentos chamaram a atenção do consulado do Brasil em Tóquio, que logo entrou em contato: diante da dificuldade logística, as autoridades pediam que o empresário fornecesse transporte e espaço para levar e abrigar brasileiros atingidos pela catástrofe. Assim, Saito cedeu cinco apartamentos de um dos prédios de sua empresa, além de dois ônibus, uma van e um caminhão (para carregar bagagens e objetos que puderam ser salvos).

Graças a essa ajuda, o consulado conseguiu chegar a Saito e levar para um lugar seguro as famílias brasileiras que haviam feito contato com a embaixada. Cerca de 40 pessoas, entre crianças e idosos, foram retirados do epicentro da tragédia nesta primeira missão, realizada entre os dias 15 e 16. O empresário e mais oito funcionários foram escalados para a missão. “A maioria das pessoas chegava e já ia para casa de parentes e amigos”, relata ele, que na viagem de ida levava mais alimentos e dois aquecedores industriais.

“Nessa viagem não tivemos muitas dificuldades, porque as pessoas já estavam esperando num ponto definido, uma estação de trem completamente deserta de Sendai e uma universidade.”

Três dias depois, uma nova missão. Desta vez, em busca de brasileiros que, em razão das dificuldades de comunicação, não haviam sequer conseguido contato com as autoridades. A missão, portanto, deveria passar pelos alojamentos. Para encontrar os conterrâneos, Saito percorria os locais com uma bandeira do Brasil. “Sabíamos que, se tivesse brasileiro ali, ele viria até nós”.

A bandeira foi a senha para que um senhor de 63 anos identificasse o voluntário que chegava à cidade. A recepção, em meio ao frio e aos escombros, era seguida de longos abraços, lembra Saito. “Ele veio correndo na nossa direção. Ele sofre de câncer, e usava uma sonda. Estava numa situação muito complicada junto com a mulher. Precisava de medicamentos, mas só conseguiu sair de casa com um passaporte e poucas roupas.”

Arquivo Pessoal
O empresário quer voltar a Sendai para levar quarta leva de alimentos
A segunda missão teve também uma parada em Onagawa (Miyagi), onde Ilton Hanashiro, um operário brasileiro de 47 anos havia conseguido contato com a família e esperava ser resgatado. Na cidade, metade da população, de 11 mil habitantes, está desaparecida desde o tsunami. Hanashiro passou um dia ao relento sob neve numa área montanhosa até ser levado para um ginásio que funcionava como abrigo na cidade, onde foi encontrado pelo grupo de voluntários.

“O Ilton estava tomando hormônio porque tinha problemas de tireóide, e precisava de cuidados médicos. Levamos medicamentos genéricos, a pedido da família. Ele chorou muito quando viu a gente. Aquela cidade foi a mais afetada pelo tsunami”, diz.

A viagem dos voluntários entre Sendai e Onagawa, que duraria cerca de meia hora em condições normais, levou quatro horas para ser concluída naquela noite: as ruas apontadas pelo GPS haviam desaparecido ou estavam cobertas de escombros.

Por conta das dificuldades, Saito conta que guardou um sabor especial pela segunda missão, que resgatou “apenas” 14 brasileiros – bem menos que a primeira. “Eram pessoas que não sabiam que seriam salvas. Nessas horas, quando o cara te abraça e chora, mesmo depois de tanto trabalho, você sabe que valeu a pena o esforço. Nada paga essa gratidão.”

Em menos de dez dias, Saito viu o Japão se transformar; chegou a ver dois mortos pelas tragédias e classifica a reação da natureza como uma “surra” que, na ficção, pareceria inverossímil. “No cinema você vê uma cena de uma onda de dez metros e fala: ‘ah, é filme, meu’. Mas quando é real é assustador”, conta o empresário, que já tem a próxima missão agendada: voltar para Sendai e levar a quarta leva de alimentos, que, desde o início da campanha, não param de chegar ao seu escritório.

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