Empresa britânica vai pagar indenização a milhares de africanos por lixo tóxico

Uma empresa britânica acusada por 31 mil africanos de ter depositado lixo tóxico na Costa do Marfim concordou em pagar uma indenização, segundo informações reveladas pela BBC. O processo, a maior ação coletiva do tipo da história da Justiça britânica, seria ouvido no tribunal no próximo mês em Londres.

BBC Brasil |

A empresa acusada é a britânica Trafigura, do setor de petróleo.

Em agosto de 2006, um navio depositou ilegalmente lixo tóxico em 15 locais diferentes em Abidjan, a maior cidade da Costa do Marfim. Nas semanas seguintes, dezenas de milhares de pessoas apresentaram sintomas como problemas de respiração, náusea e diarreia. Mais de 15 pessoas morreram e até 100 mil ficaram doentes.

A notícia do acordo para pagamento da indenização foi revelada pela BBC após um relatório da ONU apontar que há fortes evidências de que as mortes e doenças foram causadas pelo lixo tóxico.

A Trafigura vinha negando com veemência o envolvimento no incidente. A empresa, que contratou o navio, disse que o relatório da ONU é prematuro e impreciso, e que as conclusões não são amparadas por fatos.

A empresa pagou quase US$ 200 milhões para retirar o lixo depositado na Costa do Marfim, mas negou qualquer culpa no incidente.

Gasolina 'suja'
Há quatro anos, uma refinaria de petróleo da estatal mexicana Pemex começou a usar um processo de produção que gerou um derivado conhecido com "coker nafta", uma forma mais suja de gasolina.

E-mails obtidos pelo programa Newsnight, da BBC, revelaram que executivos da Trafigura perceberam que poderiam enriquecer facilmente comprando a gasolina suja mexicana por um preço muito baixo, já que a refinaria no México não tinha condições de processar o combustível.

"Esta é a forma mais barata que qualquer um pode imaginar e pode gerar muitos dólares", diz um e-mail.

No entanto, para obter lucros, a Trafigura precisava achar uma maneira barata de diminuir os níveis de enxofre da coker nafta.

A empresa contratou então o navio Probo Koala. Na costa de Gibraltar, os operadores do navio depositaram toneladas de soda cáustica e um outro catalisador para "limpar" a gasolina suja. O processo, conhecido como "lavagem cáustica" é barato, mas gera um tipo de lixo tóxico proibido em várias partes do mundo.

Proibição
Os e-mails descobertos pela BBC mostram que nos meses antes de depositar o lixo tóxico na Costa do Marfim, a empresa sabia das dificuldades da tarefa.

"Esta operação não é mais permitida na União Europeia, Estados Unidos e Cingapura. [Ela é] proibida na maioria dos países, devido à 'natureza nociva do lixo'", diz um e-mail.

A Trafigura chegou a tentar depositar parte do lixo na Holanda, mas o cheiro provocado pelo descarregamento foi tão forte que serviços de emergências foram chamados ao local.

A Trafigura nega qualquer culpa pelo incidente na Costa do Marfim. Em nota à BBC, a Trafigura afirma que "sempre buscou cumprir as leis e normas nas jurisdições onde opera".

Em 2007, a Trafigura pagou US$ 100 milhões ao governo da Costa do Marfim para "compensar as vítimas" do incidente.

Na quarta-feira, a Trafigura disse que está considerando fechar um "acordo global" com as vítimas. Os advogados das vítimas disseram que uma oferta foi feita.

"Os autores do processo estão muito contentes e querem ver este assunto resolvido", disseram os advogados em uma nota à imprensa.

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