Empobrecimento marca Argentina em seu bicentenário

População viu muitas de suas conquistas se perderem rapidamente, sobretudo após a crise de 2001, e teme um futuro incerto

Thomaz Favaro, especial para o iG de Buenos Aires |

O aumento da população indigente nas ruas de Buenos Aires é o mais visível sintoma do empobrecimento da Argentina ao longo da última década. Durante a noite, o centro da cidade fica às moscas: poucos portenhos se atrevem a caminhar pela região. É nesse horário que os mendigos tomam conta das ruas mais escuras e centenas de catadores vão ao local para revirar as lixeiras e separar os materiais que podem ser vendidos para fábricas de reciclagem. Pouquíssimos estão organizados em cooperativas: a maioria trabalha por conta própria e em condições precárias.

Arte/iG
Muitos argentinos que atualmente vivem na pobreza já fizeram parte da classe média
. Em 1992, a classe média argentina representava 64% da população – proporção que caiu para 37% em 2004, segundo estudo da Universidade Nacional de La Plata. Além disso, de acordo com o índice de pobreza medido pela cesta básica, 31% dos 40,2 milhões de argentinos atualmente são pobres.

Diante desse cenário, poucos argentinos são otimistas quanto ao futuro ou se contagiam com o clima de festa pela comemoração do bicentenário da revolução que deu início ao processo de independência do país, em 25 de maio. Para piorar, muitos não enxergam no futuro do país nem a sombra do passado glorioso que tiveram.

Basta dizer que em 1910 a Argentina era a oitava nação mais rica do mundo. No ano do centenário, a renda per capita era 60% maior do que a da Itália, o triplo da japonesa e cinco vezes maior que a do Brasil. Atualmente, a situação é diametralmente oposta. No ranking das nações mais ricas, a Argentina ocupa a 68a posição e sua renda per capita (US$ 8,2 mil) é inferior à do Brasil (US$ 8,3 mil), Japão (US$ 38,5 mil) e Itália (US$ 39 mil).

Crescimento das favelas e da violência

Outro fator que simboliza a decadência social do país é o aumento das “villas”, as favelas argentinas, tão deterioradas quanto as brasileiras. Segundo estudo da Universidade Nacional de General Sarmiento, 2 milhões vivem nas 800 favelas e assentamentos da região metropolitana de Buenos Aires.

“Embora os assentamentos precários sejam um problema antigo, seu ritmo de crescimento aumentou muito nos últimos anos”, afirma a antropóloga e autora do estudo María Cristina Cravino. De acordo com a coordenação de villas da cidade de Buenos Aires, houve aumento de 30% no número de favelas entre 2004 e 2008.

© AP
Imagem aérea mostra favela em frente a um condomínio no subúrbio de Buenos Aires (foto de 2003)

A “Villa 31”, a maior favela da cidade, localiza-se nas imediações da estação ferroviária Retiro, no centro. Ali, as construções não param: como não há mais espaço para expandir horizontalmente, as casas começam a ganhar andares adicionais.

A falta de segurança é outro problema crescente nos grandes centros urbanos. Segundo estudo da Universidade Torcuato di Tella, 30% dos argentinos já foram vítimas de algum crime, o dobro do registrado há uma década. A Argentina, no entanto, segue sendo um país relativamente seguro. A taxa de homicídios é de 5 para cada 100 mil habitantes, equivalente à metade da média mexicana e a um quinto da taxa no Brasil.

Perspectivas econômicas

Com estimativas independentes indicando que o PIB caiu 4% em 2009 por conta da crise mundial, uma pesquisa divulgada pelo Gallup neste mês indica que 55% da população avalia que a situação econômica está ruim, enquanto apenas 9% pensam que está boa ou muito boa. As expectativas também não são animadoras: só 16% dos argentinos acreditam que a economia vai melhorar neste ano.

“O que nos atrasa é o fato de termos políticos que, uma vez no poder, querem destruir tudo o que os governos anteriores fizeram para recomeçar do zero”, afirma o estudante de música Christian Fernandez, de 25 anos.

A opinião é compartilhada pela professora de matemática Isabel Juarez, de 55 anos. “Se continuarmos dessa maneira, não vejo possibilidade de grandes melhoras no curto prazo”, diz.

Isabel, que trabalha com alunos do ensino médio, observa com preocupação a queda na qualidade da educação do país. “Ainda contamos com um bom corpo docente, mas os salários são baixos e falta infraestrutura. Em meados deste mês, não pude trabalhar em um colégio porque o teto da sala de aula ameaçava desabar”, conta.

Embora a Argentina tenha crescido mais de 8% ao ano de 2003 a 2009, ainda não conseguiu alcançar o PIB per capita que possuía nos anos anteriores à crise de 2001, quando a economia entrou em colapso após uma década de paridade forçada entre o peso argentino e o dólar americano.

© AP
Em 2001, para contornar corralito, muitos argentinos abriram várias contas bancárias
Incapaz de honrar seus compromissos, o país declarou a moratória da dívida externa de mais de US$ 100 bilhões. O governo também impôs o corralito, nome pelo qual ficou conhecida a política de restringir os saques bancários a US$ 1 mil mensais. A medida desatou centenas de protestos que colocaram o país em estado de convulsão social. Entre 1999 e 2002, o PIB do país encolheu 20%.

A recuperação econômica dos últimos três anos foi parcialmente engolida pelo dragão inflacionário. A inflação anual chegou a 15% em 2009 segundo economistas independentes, que duvidam dos dados oficiais – segundo o governo, os preços subiram apenas 7,7%.

Como resultado, a Argentina é atualmente vive em crise. Na economia, o país segue com perspectivas de crescer a altas taxas, mas perdeu competitividade em setores-chave, como agricultura e pecuária. Os argentinos, que consumiram 72 quilos de carne por pessoa em 2009, devem cortar oito quilos de sua dieta este ano por conta do aumento nos preços.

Mas, apesar das derrotas, nem todos estão pessimistas quanto ao futuro da Argentina em médio e longo prazos. O advogado Alejandro Perucchi, de 59 anos, acredita que o país ainda mantém conquistas que não se perdem da noite para o dia. “Temos uma população relativamente bem educada e uma boa infraestrutura social”, afirma. “Tenho um plano de saúde privado para uma eventual emergência, mas sei que nos hospitais públicos estão os melhores médicos.”

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