Embaixador do Brasil: Desafio de sul do Sudão será infraestrutura

Em entrevista ao iG, Antonio Pedro fala sobre referendo em que sul cristão vota se quer independência do norte muçulmano

Marsílea Gombata, iG São Paulo |

A partir de domingo, o Sudão – o maior país da África – dá início a um processo político que pode levar à criação de uma nova nação. Nos próximos sete dias, sudaneses do sul decidem, por meio de um referendo, se querem ser um país independente do norte, onde fica a capital Cartum. A votação simboliza o fim do maior conflito da história da África, em que 2 milhões morreram nos confrontos entre o sul cristão e o norte muçulmano.

Dentre as preocupações mais imediatas que a secessão pode trazer, estão desafios estruturais do sul, que carece de recursos como escolas e hospitais. A avaliação é do embaixador brasileiro no país, Antonio Carlos do Nascimento Pedro. “Diria que o sul tem muita carência de infraestrutura. Há potencial agrícola e econômico, como no caso do petróleo, mas não possui instalações necessárias”, disse o diplomata em entrevista ao iG .

Ciente de que o Sudão, assim como o restante do continente africano, sofre com a demarcação de fronteiras colonialistas, Antonio Pedro fala como a autonomia do sul, dentro do estabelecido pelo acordo de paz que pôs fim à guerra civil de 21 anos, em 2004, pode contribuir para a paz também na conflituosa Darfur, região no oeste sudanês onde morreram entre 300 mil e 450 mil desde 2003. “No curto prazo, os movimentos rebeldes se sentiriam mais fortalecidos e tentariam obter mais concessões do governo”, prevê.

AP
Sudanesa do sul participa de manifestação por separação do sul em relação ao norte (7/1/2011)
Segundo o embaixador, há uma grande expectativa dos sudaneses nos dias que precedem à votação, mas sem relatos de violência no país. Um dos motivos para isso seria o fato de o próprio presidente Omar al-Bashir – com mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) da ONU por crimes de guerra em Darfur – ter prometido respeitar quaisquer que sejam os resultados durante visita a Juba, capital do sul sudanês, na terça-feira.

Após o referendo, serão necessários acordos em setores diversos, como cidadania, Forças Armadas e divisão de lucros do petróleo produzido no país, disse o embaixador. O Sudão é o terceiro maior produtor da África Subsaariana. Enquanto mais de 80% das reservas de petróleo e gás concentram-se no sul, oleodutos e refinarias ficam no norte.

Leia a seguir a entrevista, em que o embaixador brasileiro fala sobre o provável nascimento de um novo país, com cinco etnias diferentes e 8 milhões de habitantes, cujo território será maior que França e Alemanha juntas.

iG: Qual a avaliação que o sr. faz sobre o momento pré-votação? Houve aumento das tensões por conta do referendo?
Antonio Pedro: O referendo será um processo que durará uma semana, que vai dos dias 9 ao 15. Depois disso, há um cronograma de passos até a divulgação final do resultado, que está prevista para 14 de fevereiro. Como se trata de uma votação sobre independência e secessão, então é natural que haja grande expectativa. É um fato político importante por estar ligado à reparação territorial e mexer com grupos, mas não há indícios de brigas, tensões e violências políticas. Isso porque se trata de um processo que vem ocorrendo nos últimos seis anos: desde 2005 está prevista a realização do referendo. Depois do acordo de paz que pôs fim à guerra, houve a criação de um cronograma para se chegar ao referendo, como a aprovação de uma Constituição e leis para regulamentar a atividade dos partidos políticos. Institucionalmente, o país está absolutamente normal e não há turbulência, apenas expectativa. Há muitos observadores internacionais para acompanhar a votação. E os prognósticos, majoritariamente, indicam a possibilidade concreta de secessão, com a criação de um novo país no sul.

iG: Quais as consequências imediatas se o sul votar pela separação? O que pode acontecer no norte, por exemplo, região onde o presidente prometeu maior rigor da lei islâmica?
Antonio Pedro: Quando estamos diante de uma situação complexa, em que não se consegue necessariamente projetar a visão para os próximos anos, temos de fazer uma avaliação genérica. Se prevalecer a lógica atual, do jogo político e do diálogo, todas as tensões serão encaminhadas por aí, o que acho positivo. Uma situação complexa como essa não tem solução militar, apenas política. Se o resultado for a secessão, o próximo passo será discutir o pós-referendo. É como uma empresa que, após ser separada, precisa definir a parte dos ativos, quem fica com o que, a quem cabem os recursos etc. No caso de um país, há ainda outros complicadores, como a divisão das Forças Armadas, a cidadania, as fronteiras. Mas tudo dependerá também de habilidade, lideranças, sabedoria, histórias e limites do processo político. E, como ao longo de sua história os sudaneses tiveram de ser bons negociadores, acredito nesse caminho.

iG: Em sua opinião, o sul está preparado para ser autônomo?
Antonio Pedro: Diria que o sul carece muito de infraestrutura e tem um grande potencial agrícola e econômico. No caso do petróleo, por exemplo, pode ter potencial, mas não possui instalações para transporte e refino. Levará tempo e será necessário um bom relacionamento com o norte para que essa estrutura seja construída. A proximidade de duas áreas interligadas, vizinhas, causa necessariamente um bom relacionamento, em que prevalece a sabedoria política. O fato de Al-Bashir ter ido ao sul nesta semana mostra que não haverá ruptura de relacionamento.

iG: De que forma a independência do sul pode influenciar a instável região de Darfur?
Antonio Pedro: A influência maior, no curto prazo, se daria com os movimentos rebeldes. Eles se sentiriam mais fortalecidos e, por isso mesmo, na mesa de negociações tentariam obter mais concessões do governo. A independência do sul traria consequências positivas para as negociações na região de Darfur.

iG: Já se cogita uma representação diplomática no novo país, que deve nascer em 9 de julho e ter como líder Salva Kiir Myardit, ex-rebelde do Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA)?
Antonio Pedro: Isso é uma decisão que caberá à presidente Dilma Rousseff e ao novo chanceler (Antonio Patriota).

iG: O Sudão também é vítimas de fronteiras coloniais que castigaram outros países do continente ao separar tribos, etnias, em territórios de países distintos? Pode-se dizer que o Sudão é, hoje, dois países em vez de um?
Antonio Pedro: Poderia dizer que a demarcação de algumas partes das fronteiras foi feita no passado por potênciais coloniais e europeias e, por causa disso, em alguns casos há tribos e grupos étnicos iguais em dois países diferentes. Mas isso é na África de modo geral. A percepção que tenho é que o Sudão é um só país. É um dos países mais ricos da África, se não o mais, em termos de recursos, etnia, civilização, religiões e também no relacionamento com seus vizinhos. Observe que eles sempre foram, de certa maneira, conectados a eixos de poder regionais de determinadas épocas. Há, por exemplo, o eixo norte na fronteira com o Egito, que já foi palco de civilizações importantes e de influência recíproca com o Sudão. É como um caleidoscópio: depende de como você olha, enxerga diferentes tipos de riqueza.

iG: Há chances de o presidente Omar al-Bashir não reconhecer a independência do sul?
Antonio Pedro: O que vejo é uma constante reafirmação do reconhecimento dos resultados, sejam pela unidade ou pela separação. Não vejo nenhuma indicação ou movimento contrário sobre isso. Vale lembrar que o referendo tem normas que devem ser seguidas para que o resultado possa ser considerado transparente e justo, como uma eleição que levará em conta votos, urnas, cédulas, colégios, prazos. Há todo um ritual de logística importante que está sendo acompanhado por observadores locais, não necessariamente ligados ao governo, e de vários outros países e instituições internacionais, que acompanharão de Cartum e de algumas regiões do sul.

iG: Na época da expedição do mandado de prisão pelo TPI contra Bashir, o então chanceler Celso Amorim expressou claramente sua posição contrária ao presidente sudanês, dizendo que ele seria imediatamente preso se entrasse no Brasil. O fato de haver esse mandado de prisão traz consequências para a relação com o Brasil?
Antonio Pedro: Sobre esse tema é melhor conversar com o próprio Amorim. O Brasil tem relações de Estados, independentemente de pessoas. Há na África um corpo diplomático inteiro, com 59 embaixadas, fora as agências da ONU e grupos internacionais importantes. São relações de Estado entre países.

Arte/ iG
O Sudão, que pode vir a ser dois países, é o terceiro maior produtor de petróleo da África Subsaariana

    Leia tudo sobre: sudãoreferendoconflitoomar-al-bashir

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG