Em visita a Jerusalém, FHC se diz otimista em relação ao conflito no Oriente Médio

Ao final de uma visita a Israel e aos territórios palestinos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se manifestou otimista em relação às chances de resolução do conflito na região.

BBC Brasil |

Fernando Henrique visitou a região como parte do grupo intitulado The Elders , uma organização fundada por Nelson Mandela em 2007, que tem como objetivo promover uma diplomacia informal com o objetivo de ajudar na resolução de alguns dos mais complexos conflitos internacionais.


FHC, ao lado do ex-presidente dos EUA Jimmy Carter e outros
líderes, em Kalandia, na Cisjordânia / AFP

O grupo inclui o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter, o reverendo sul-africano Desmond Tutu e a ex-presidente da Irlanda Mary Robinson.

Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, em Jerusalém, Fernando Henrique disse que é necessária uma ação "mais direta" por parte da comunidade internacional para ajudar na resolução do conflito entre israelenses e palestinos e analisou o papel que o Brasil pode ter na diplomacia internacional, em geral, e no Oriente Medio, em particular.

Fernando Henrique também fez observações sobre o impacto das crises atuais, no Senado e na Receita Federal, na credibilidade do Brasil no exterior. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - Em que o senhor baseia seu otimismo quanto as chances de solução do conflito israelense-palestino?
FHC - Existe uma nova administração nos Estados Unidos que está pretendendo abrir uma negociação e aqui há o sentimento de que se a comunidade internacional não atuar, nada vai acontecer. Ora, a comunidade internacional parece que começa a atuar. Por outro lado, há uma sensação de que houve um avanço na parte economica (na Cisjordânia). Mas está claro, do lado palestino, que a melhoria economica não resolve as questões fundamentais colocadas pelo fato de que existe uma ocupação.

Conversei com muita gente, desde os presidentes até pessoas da base da sociedade, inclusive jovens, e sinto que as pessoas não aguentam mais a situação.

Mas tem que haver respeito mútuo, a aceitação da existência de dois estados, e, com isso, tem que terminar a ocupação de um dos estados. Não há segurança para um se não há segurança para o outro, a segurança ou é coletiva ou não existe.

Vi o muro na Cisjordânia e senti uma sensação de prisão, e realmente, o povo de Israel, que é um dos esteios da ideia de liberdade e democracia no mundo, não pode deixar de ver que essa é uma situação anômala. Entendo a situação, existe a questão da segurança, há terroristas suicidas, mas não justifico.

É preciso acabar com essa situação, tanto de terrorismo, quanto da necessidade de fazer muros. Acho que a comunidade internacional tem que ser mais direta e pôr o dedo nas questões centrais.

BBC Brasil- Na sua avaliação, o Brasil pode ter uma função ativa no processo de paz?
FHC - Vejo que o Brasil está crescentemente interessado em participar no processo e acho muito positivo. Hoje, em uma conversa por vídeo com jovens que estão em Gaza, uma delas me disse que queria me cumprimentar porque no Brasil o verde e o amarelo se fundem, ou seja, no Brasil não há discriminação. Esse sentimento de que o Brasil pode aportar uma cultura de conciliação é importante e acho que se o governo brasileiro avançar mais nessa direção, é positivo.

BBC Brasil - Como o senhor vê o futuro da diplomacia brasileira, que caminho o Brasil deve seguir para se tornar um fator importante na politica mundial?
FHC - Ninguém pode ser importante na política mundial se sua própria casa não está em ordem. O Brasil está organizando a casa, mas ainda temos problemas. Precisamos diminuir muito a desigualdade que existe, precisamos que a lei seja realmente válida, mas demos passos nessa direção e também demos passos fortes na área econômica.

E temos algumas cartas a jogar, não creio que seja carta militar, essa nunca foi nossa vocação. As cartas que temos para jogar no mundo são outras.

Uma, na questão da energia. Temos uma vantagem imensa, temos recursos naturais, temos o etanol, temos petróleo e podemos lutar por uma energia mais limpa e esta questão é muito importante no mundo.

Podemos ter uma posição de vanguarda na questão do meio ambiente, porque nós não dependemos da emissão de CO2 das indústrias para garantir o nosso desenvolvimento. Basta parar de queimar árvores, isso acho que é um imperativo nacional.

A outra carta a jogar eu já mencionei, é que temos uma cultura de conciliação, de uma aceitação do outro.

Isso não quer dizer que no Brasil não haja preconceitos, mas o que valorizamos, culturalmente, é a aceitação do outro.

Ora, essa é uma carta importante num mundo onde os polos de poder tornam-se diversificados, onde as culturas são diversas e não sabem como se relacionar uma com a outra.

Estou vendo aqui, num território tão pequenininho, que deu origem a todas as religiões e uma religião não convive com a outra. No Brasil nós não fazemos isso, cada um tem sua crença e não matamos uns aos outros porque não cremos no mesmo Deus.

BBC Brasil - A crise brasileira atual, no Senado e na Receita Federal, pode afetar a credibilidade do país no exterior?
FHC - Pode sim, mesmo que se saiba que a corrupção não é uma coisa específica do Brasil. O que assistimos nos últimos tempos gera um desgaste na confiança em nossas instituições.

Começa a haver uma certa desconfiança, porque um país que se respeite começa respeitando seus cidadãos e fazendo com que a lei valha. Crescemos e aparecemos, portanto nós temos que nos comportar bem, pois a vigilância é interna e externa.

BBC Brasil - Na sua opinião, qual é o limite do pragmatismo na politica externa? Por exemplo, no caso das relações do Brasil com o Irã?
FHC - O Brasil devia ser mais crítico do que acontece dentro do Irã. No tempo da ditadura, quando os de fora reclamavam, nós gostávamos, porque não podíamos aceitar que se solidarizem com a ditadura.

BBC Brasil - E qual é sua opinião sobre o fato de que o Brasil não assinou, no ano passado, o tratado internacional contra as bombas de fragmentação?
FHC - Acho isso inconcebível, essas bombas são contra pessoas e não contra objetivos militares, é inaceitável. Sou muito contrário a que a gente, por razões pragmáticas, sejam quais venham a ser, defenda a utilização de armamentos que vão contra crianças e contra pessoas indefesas. A minha opinião pessoal é que o Brasil deve assinar.

BBC Brasil - Há rumores de que o senhor teria intenções de se candidatar ao cargo de Secretário Geral da ONU.
FHC - Isso não é verdade. Esse é um cargo politico que depende do apoio do próprio governo, que certamente eu não teria. É um cargo com grande pressão burocrática e além do mais, eu tenho 78 anos e acho que a pessoa deve saber o seu limite. A essa altura da vida eu contribuo melhor em atividades como esta do The Elders.

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